Como minha alma faceira e meu espírito livre se deixou aprisionar tantas vezes.

É como diz a frase do Jacques Derrida que gosto de usar para me definir:

“Nunca conheci um homem capaz de tamanha alegria e intensidade. Nunca conheci, tampouco, ninguém tão irremediavelmente triste, abatido e melancólico.

O mundo me exige demais às vezes. Sempre tenho que seguir em frente com fantasmas a minha volta. No mundo virtual a gente pode descobrir e fuçar em tudo que quer, mas até mesmo quando se deixa pra lá, o presente do passado bate a minha porta, do correio eletrônico.

Não dói, mas também não precisa lembrar. Era só isso que eu queria do destino, o brilho eterno de uma mente sem lembranças.

Hoje lembrei das minhas conversas com o Nelson Rodrigues em 2005… sempre atual, as minhas palavras e as dele.

Isso porque li no twitter do @rodriguesnelson:

A pior forma de ódio é o ex-amor. Ninguém perdoa aquele ou aquela que deixou de ser amado.

Ai, isso tudo é tão complicado que prefiro nem pensar.  É tão boa a vida com só o que ela tem de bom. É passageira, efêmera, instável, mas pulsa mais em minhas veias.

É como estar numa montanha russa, o frio na barriga é mais constante, mas também passa rápido. Não há a sensação do fim, estou sempre em loopings e com a eterna expectativa dos começos.

Estou olhando Um Lugar Chamado Notting Hill, acho que é a primeira vez que assisto desde o começo e somente a segunda vez que vejo este filme. A música She, da abertura, me lembra  um domingo de março de 2006, quando alguém acordou, viu o sol lá fora de um dia lindo, lembrou de mim e me escreveu um e-mail com a letra dessa música.

Naquele dia eu não sabia que isso seria o começo de algo que mudaria minha vida, mas não para sempre.

Lembrar de um momento como esse com carinho é a prova de que o que nasceu ali  já morreu.

E já que estou nostálgica, vou postar parte de um texto que escrevi um mês depois para postar aqui e nunca foi postado… São conceitos que tenho que relembrar, pois eu deveria sentir isso sempre, principalmente agora que não tenho a mínima ideia do meu futuro. Acho que até quem eu sou é algo que está meio confuso na minha psiquê. E também porque tudo nessa vida é volátil até que a gente encontre aquele lugar onde queremos ficar para sempre. Até lá, o jeito é viver muitas vidas.

Nas últimas 720 horas da minha existência o tempo ganhou um significado novo para mim. Eu não sei se ele esteve desde sempre comigo, se chegou agorinha e nem quanto tempo vai ficar. Eu não faço mais distinção entre presente e futuro. Eu vivo os momentos, os instantes, o dia, a semana e o mês. E neste curto e longo período de tempo já vivi uma vida!

Finalmente consegui compreender que o presente e o futuro são hoje. Agora, já foi e já é. E dentro de cada dia cabem planos e sonhos do mesmo jeito, mas de uma forma leve. Sem a velha preocupação que me tomava o tempo que eu deveria estar vivendo o que eu estava planejando para amanhã.

Faz um mês que eu sou eu. Até um eu que nem eu mesmo conhecia. Eu faço as coisas que sempre quis fazer, eu ajo da maneira que eu sempre achei que deveria ser. Eu não represento papéis, eu não estou tentando agradar ninguém. E ele está ali do meu lado, do mesmo jeito.

*Agora que o filme terminou consegui concluir o post… fiquei lembrando de onde conhecia a trilha, ela embalou o tal mês. A gente pode não fazer distinção entre presente e futuro, mas sabe muito bem onde fica o passado.

Chegar em casa de madrugada e não precisar andar na ponta dos pés.

Notei que tenho aproveitado ao máximo as madrugadas dos meus findis, não só porque já trabalhei em muitas, mas também porque o príncipe não vira mais abóbora a meia-noite.

O ruim de morar sozinha é que tu só se dá conta de que está introspectiva quando entra em contato com outras pessoas.

O que esperar quando não se tem nada para esperar?

Já que eu decidi pela bicicleta, agora me falta alguém com quem compartilhar pedaladas.

Quando a comprei eu tinha, mas veja que coisa, nunca pedalamos juntos.

Aquela minha antiga teoria* de que estar solteira não significa estar sozinha, está valendo mais do que nunca.

E o inverso também pode ser proporcionalmente verdadeiro: estar namorando não significa não estar solitária.

* não sei porque não postei por aqui, pelo menos não achei pela busca

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Escrevi também no blog Toda Mulher, um post que confessei que queria casar, desde que fosse com alguém que preenchesse certos requisitos (confere lá).

Terminei o post assim:

“Depois de admitir isso e ainda publicamente, só falta eu me livrar de uma coisa: minhas reflexões. Não dizem que quem pensa não casa? E eu ando doidinha para comprar uma bicicleta.”

Na época eu achava que tinha reencontrado essa pessoa, mas como ainda não encontrei, pedalar sentindo o vento fresco que vem do Guaíba percorrendo todo meu corpo, emoldurada pelo pôr-do-sol é tudo que quero agora. Com sorte, com uma boa companhia, nem que seja a dos meus pensamentos.

Muitas vezes é melhor mesmo pensar e comprar uma bicicleta, até ter alguém que se encaixe na tua carona, porque por mais amor que possa existir, duas pessoas só ficam juntas quando se quer pedalar para a mesma direção.

Bicicletas na minha vida

Ter total poder sobre o controle remoto da televisão.

A não ser que ele seja da Net versão analógica e tenha vida própria, como o meu.

Também é bom ter o controle do DVD só para mim. Sou do tipo chatinha, se perco uma palavra, volto o filme.

Esquecer a toalha molhada em cima da cama e não ter de quem reclamar, afinal foi você mesma que deixou.

Esquecer um cartão em casa e só lembrar na hora de fazer uma compra e não ter ninguém para ligar para pedir o número.

Outras dores e delícias

Comecei a ver hoje a 6ª temporada de Grey’s Anatomy e uma frase me mercou no final do segundo episódio:

Quando dói até mesmo para respirar, aí você sobrevive.

Nossa, já senti isso. Tanta dor que parecia que não ia suportar… e hoje estou aqui, consciente de que tudo nessa vida passa, que a gente sempre consegue superar tudo e que a esperança sempre volta.
E aí falaram outra frase, que complementa a outra:
O pior de tudo que quando você acha que já passou, começa tudo de novo…

Mas quando a gente está disposto a querer que comece tudo, para então ver no que vai dar, acho que já passamos do estágio de sobreviver. É então que novamente queremos viver a vida, com o peito carregado do otimismo de que o pior já passou e ainda não chegamos aquilo que nos espera.

Eu queria ser a Meredith só para encontrar meu McDreamy no dia seguinte no mesmo local de trabalho…

Semana agitada. Cansaço acumulado desde a noitada de quarta-feira (maravilhosa). A sexta era para ser de programinha mais ligth. Cheguei em casa relativamente cedo, mas me diverti muito.

Fui assistir Clandestinos, do João Falcão, no Theatro São Pedro. Ganhei os ingressos e deu uma volta enorme na cidade para buscá-los, naquele trânsito das 18h e com chuva na capital gaúcha. Até chegar ao São Pedro foram quase duas horas, e eu achando que ia dar uma banda na Feira do Livro… Mas a peça é muito engraçada. Vale a pena, cheia de atores jovens, bonitos e talentosos. A plateia era meio vergonhosa. Só na baixa e ainda não lotou… Espero que no findi melhore, porque a gurizada é boa e isso envergonha nossa capital.

Depois uma pequena saga para tomar uma ceva na Lima e Silva. Num surto de otimismo achei mesmo que ia chegar depois das 23h30 e sentar na rua no Pinguim. Tentei o Pedrini, fiquei na fila até começar a chover. Voltamos para pegar uma mesa dentro do Pinguim e além de cheio tinha o pessoal da calçada debandando pra lá por causa da chuva. Então fomos para um lugar que nunca tinha reparado na existência: Vídeo Bar. Um bar todo com a temática de filmes, muito simpático e tinha uma das mesas (que consegui sentar depois) com a luminária da Amelie Poulain! Quero uma. Só que o nome do diretor escrito nessa mesa não combinava muito: Hector Babenco.

Enfim, lugar agradável e um papo ótimo regado a ceva bem gelada. Depois um banho de chuva para lavar a alma e fui dançando e cantando dentro do carro que nem vi um cara fazendo ontem no Moinhos. Ele dançava Frank Sinatra e cantava bem alto no engarrafamento do fim da tarde e com as janelas abertas. Eu passei por lugares menos movimentados e com o vidro fechado por causa da chuva enquanto gritava canções e dançava dentro do carro.

Aí peguei engarrafamento na Pe. Cacique mais de meia-noite e meia, no meio daquela fuzarca da lapa baguaceira que se instalou ali com aquele monte de escola de samba e pagodeiras. E tinha uma kombi parada no meio da rua…

Cheguei em casa cansada, mas feliz. E cedo para uma sexta, basta ver os míseros contatos (ausentes) que estão no meu msn. Mas sempre temos o sábado à noite.

Foi uma pessoa que vem de uma cidade que nem está no mapa que me fez refutar uma das minhas teorias.

E quebrei uma das minhas regras.

Mas eu sei da minha história e o quanto foi bom se deixar levar pelo momento, pelo menos uma vezinha. Portanto não estou me importando com julgamentos.

Saber quem eu sou: muito tempo e $$ de terapia.

As justificativas para essa pequena loucura: muita dor e sofrimento já passado.

Sentir o que estou sentindo hoje: não tem preço!

Eu ainda não cheguei no marco zero, estou na linha negativa. Mas acho que pela primeira vez serei forçada a tomar uma decisão por minhas próprias escolhas. Tenho vindo a reboque das influências daqueles que passaram pela minha vida, ainda que por breves momentos e de marcas doloridas. Preciso saber o que eu quero, o que eu gosto e como conseguir chegar lá. Não é fácil quando não se tem mais 18 anos. Ao mesmo tempo que não tem a pressão daquele tempo, existem outras que eu mesma me imponho que são tão ou mais pesadas.

Dá vontade de voar alto, viajar, mas como se desprender de uma vida arraigada e de certa forma confortável? Tem dias que vejo tudo como um novo começo, em outros parece que perdi tudo. E essa contradição é mais um fato para me desfocar da minha real condição, eu que já tenho tanto problema em achar foco para as coisas que quero.

E bate uma preguiça, um desânimo… eu corri tanto para chegar lá que cansei. E agora? Olho para todos os lados e está visto, não há um lugar para onde eu queira ir nesse caminho. Voltar? Tomar outro? Mudar? São perguntas que me doem e que ainda não consigo responder, não consigo agir. Alguém me disse hoje que os ventos da dúvida são bons. É verdade, porque acomodação dá tédio e eu estou sempre querendo me mover. Até agora eu tinha para onde ir. Hoje não sei mais. Acho que pela primeira vez na vida estou enfrentando a mim mesma de uma maneira que só eu posso resolver e eu ainda não tenho muito ideia por onde começar. Estou jogando para todos os lados, mas nem sei se essa é a direção certa.

Meu centro de equilíbrio sempre foi apenas eu, mas eu sempre gostei de fingir a importância maior que os outros tiveram nas minhas escolhas e decisões, embora eles nunca tenham se envolvido na minha vida e nunca estiveram lá nos momentos-chaves. Acho que era eu que me envolvia demais nas suas e me apaixonava pelas escolhas dos outros.

Eu preciso fazer tudo sozinha, mas adoraria que alguém me resgatasse desse momento e me deixasse viver um conto (uma história breve) até que eu soubesse que rumo tomar. Um hiato no tempo amaparada pelo cuidado descompromissado da paixão e do desejo. Descompromissado mesmo, para que eu não caísse no erro novamente de minhas escolhas serem influenciadas por outra pessoa.

Uma fuga, me perder com alguém para talvez poder me encontrar.

Amores só são diferentes enquanto existem.
Quando acabam, são todos iguais.

Tem coisas que a gente fez no passado que a idade nos absolve. E acho que poderemos dizer a mesma coisa no futuro.

artista blogHoje por um momento senti a força esvair, o cansaço de ser sempre forte bater mais alto e algumas lágrimas rolarem. Nossa há quanto tempo não chorava… tanto que nem lembro.

Meu mundo está caótico, tudo parece estar evaporando, desvanecendo, desmoronando… e eu estou completamente paralisada, assistindo a tudo isso derreter diante dos meus olhos e simplesmente não consigo fazer nada. Desisti.

Durou alguns minutos essa sensação. Cheguei em casa e resolvi arregaçar as mangas e começar fazer alguma coisa que amenizasse um pouco do caos e manter uma das poucas coisas sólidas que ainda me resta. No mais, é engolir os suspiros e acreditar que tudo passa e que tudo faz parte de um plano maior e que ainda vou agradecer por isso estar acontecendo porque o melhor virá. De certa forma já aconteceu uma vez e veio o melhor. Vai ver ainda não cheguei onde devo estar.

Obras Introdução à nova crítica e Malhas da liberdade, de Cildo Meireles. expostas no MARGS Fotografia: Cristiano Sant'Anna

Obras Introdução à nova crítica e Malhas da liberdade, de Cildo Meireles. expostas no MARGS Fotografia: Cristiano Sant'Anna

Visitei parte da 7ª Bienal do Mercosul, fui na mostra Projetáveis, no Santander Cultural e Desenho das ideias, no Margs. Na primeira, senti que é aquela parte que quer se integrar ao mundo virtual à qual vivemos, dialogando com a fronteira entre o real e o virtual. A obra Virtual Redundancy é a prova disso, uma maquete com peças de computador é montada em um vídeo e os objetos estão disponíveis no real para que possamos criar também.

E como tudo nesse mundo parece já ter sido feito, nada me pareceu novidade. Como em Drawing for Filó, em que o artista desenha sendo filmado e o que temos na tela é a projeção da obra sendo feita. Uma outra plataforma, acompanhamos o processo de criação, mas ainda é um desenho, a arte genuína.

Gostei da obra The Dance Music Collaborations, é literalmente estonteante, pois as luzes e o som te deixam tontos dentro da sala de projeção. Curiosa é a instalação Atrás da Porta, uma topologia dos espaços inacessíveis. O artista, Fernando Pião, colocou câmeras de segurança em lugares para os quais não se costuma olhar. As câmeras estão espalhadas pelo Santander em pontos onde ninguém passa. O segurança, um senhor muito simpático (afinal ele achou que eu tinha 17 e 18 anos… tá certo que estava meio escuro lá) me disse que a mediadora estava explicando esses dias a obra para um grupo de estudantes e ouviu-se um estouro dentro do museu. Uma cortina caiu onde uma dessas câmeras estava. Ela dizia que o artista queria mostrar pontos onde não se observam pessoas e lá estavam nos monitores, os bombeiros arrumando a cortina… Fun at Work parece ser bem legal, mas estava fora do ar, assim como em outras, a interatividade do público não estava funcionando muito bem e as obras “travando”… é o mundo dos computadores!

Ainda não fui no Cais, não sei o que tem lá, mas colocar os projetáveis dentro do Santander foi uma ótima ideia. Se vê tudo no conforto do ar-condicionado. Só algumas fichas da obra deveria ter uma luz em cima para podermos ler. Lembra daquela Bienal dos containers? A gente quase desmaiava de calor vendo os vídeos. Tinha também no Memorial do RS, um calor dos infernos por causa do teto de madeira. E na 5ª Bienal, lembro que os últimos andares da Usina do Gasômetro se transformaram em salas escuras que dava até medo de visitar.

Abraham Cruz Villegas, Tratado de Libre Comer

Abraham Cruz Villegas, Tratado de Libre Comer

No Margs é que me senti mais em casa, com a mostra Desenho das Ideias. Fiz a visita com uma monitora. Para mim arte é completamente ideia, muito mais do que um objeto, porque às vezes os artistas não criam nenhum objeto, mas se apropriam de coisas já existentes dando um novo significado. E a exposição mostra o desenho, de onde tudo parte, seja como esboço para uma pintura ou para a ideia de uma instalação ou uma performance. Alguns estão lá não em forma de desenho, mas materializados em 3D. Cildo Meireles é um dos meus preferidos. Ele ainda nega que não tenha cunho político com a ditadura, mas a obra Malhas da Liberdade é ou não é uma crítica a quem ia preso em nome de ideias libertárias? Gostei da delicadeza dos pequenos desenhos de José Antonio Suárez e daquela alemã (Nina Lola Bachhuber) de traço delicado que desenha com pincel! Não deixe de ver o que tem por trás da obra Tratado de Libre Comer, de Abraham Cruz Villegas. Imperdível a crítica à hipocrisia de James Ensor com suas máscaras. Tem Oswaldo Goeldi, León Ferrari  e vejam que interessante o que o Paulo Bruscky publica nos classificados. Parece que andou saindo na ZH esses dias também.

E a surpreendente Marta Minujín, que criou El Partenón de Libros (1983), “uma réplica do Partenon de Atenas em tamanho natural em plena Avenida 9 de Julio de Buenos Aires, recoberta com livros proibidos durante a ditadura militar, que foi inaugurado e entregue ao público durante o primeiro Natal em democracia”. Genial! Pena que só tenha os esboços e o vídeo da obra… Também já fez outros monumentos, como um obelisco de pão doce.

Tem muito poema sonoro e outras obras em áudio no Margs, mas não me chamaram muito atenção. Também não tem graça ficar olhando para uma parede branca enquanto escuta, muito melhor como fizeram nessa bienal, quando mp3 player nem era muito popular ainda, mas você pegava um e ficava escutando enquanto dava uma voltinha pelo cais. E também era ruim a monitora ficar ali me esperando… mas tem até Arnaldo Antunes.

Também anda rolando performances durante a Bienal, não cheguei a assistir nenhuma, mas pelo que li sobre a Aula de Ginástica e Filosofia e Ao Vivo, não pareceu nada muito atraente. Nada como a perfomance daquele cara nu, não lembro em qual Bienal, foi antes da 5ª e eu morava no centro (isso foi de 2003 a 2005). Alguém lembra? Não tenho o nome do artista, tinha um recorte no meu mural que ou foi fora ou está muito bem guardado. Mas era assim, a gente entrava em uma sala no segundo andar da Usina e embaixo, no primeiro andar, tinha uma piscina, onde o artista entrava nu e imagens coloridas se projetavam no seu corpo. Ele fazia movimentos que combinavam com as projeções. Era uma coisa muito linda de se ver e tu até esquecia de que ele estava completamente pelado. Mas se serve de consolo, tem fotos da performance do Flávio de Carvalho no Margs, quando ele desfilou de saia e meia arrastão, convencido de esse ser o traje ideal para os homens que vivem num país com o clima como o do Brasil (escrevi sobre ele aqui). Ah, as vanguardas…

Pelo menos voltei a me encantar com a Bienal, na 6ª eu passei bem à margem… e o tema era justamente A terceira margem do rio. Nesse ano, Grito e Escuta. Faz todo sentido para mim.

Sobre outras bienais

Assisti na segunda-feira a entrevista do William Bonner (@realwbonner) na Marília Gabriela e ele terminou com trechos finais da poesia Quero, do Carlos Drummond Andrade:

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Adorei os versos finais. Só quem já se precipitou no caos pode se identificar, é o que eu costumava chamar de “eu não sou eu”. Eu chamava os objetos de não-amor de amores mais ou menos (esse post explica tudo).

Mas o que preciso é acreditar que esse amor existe, não preciso que me digas de 5 em 5 minutos que me ama, mas que me ame em todos os 5 minutos da sua vida e em nome disso me respeite e respeite a nossa história. E quando se tem isso, o amor é tranquilo, não é essa angustia de ficar esperando ser verbalizado para acreditar. Nunca vivi isso, algo como no filme Marley & Eu, em que eles brigam e o amigo já está falando em separação e ele disse: “ei, foi só uma briga, eu amo a minha mulher”. Acho que esse compromisso é o mais difícil de todos. Eu sou um pouco assim, se estou com aquela pessoa me comprometo com a nossa história, por isso que quando vejo que a recíproca não é verdadeira, acabo sofrendo demais. E o Bonner também falou algo nesse sentido em relação a Fátima, e achei lindo.

Talvez isso seja a ética do amor, o verdadeiro compromisso e respeito por aquele que dizemos amar. Isso é o amor, nas atitudes, muito além das palavras. Quando se trata de família tem um laço maior que te une para toda vida. Mas quando tu resolve formar uma família com alguém, aí precisa dessa entrega, de criar esse laço por livre e espontânea vontade, e mantê-lo. Incluir alguém na sua vida é a coisa mais séria desse mundo, pena que tem pouca gente praticando isso com a solenidade que merece. Não acredito que amor acabe, acredito em quem desiste de mantê-lo.

O poema completo:

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Minha cabeça anda fervilhando. Ansiedade, perspectivas, incertezas e alívio só de imaginar algumas coisas…

Tem horas que dá vontade de chutar logo o balde, mas estou tentando esfriar a cabeça e tentar prever o caminho antes de me jogar nele com uma mochila nas costas.

Dizem que todos caminhos têm volta. O meu não teve. Por isso quero pensar direitinho na próxima estrada que vou seguir. Não quero que seja um atalho, ou pode ser, o importante é que eu a percorra com conforto, satisfação e felicidade.

Minha vida toma o rumo das minhas escolhas. Não sei se erradas, mas elas definiram tudo até agora e vire e mexe me colocam em novas encruzilhadas.

Estou em uma agora e quero acertar o máximo possível.

Faço dieta para poder beber.

Aquário, do Oscar Quiroga, hoje em Zero Hora:

A coerência nem sempre será virtuosa, porque se você eternamente agir de acordo com o que disse que iria fazer, então nunca mudará de ideia no meio do caminho, nem sequer quando isso seria o melhor a fazer.

Sábias palavras. Prezo muito a coerência, já falei disso aqui muitas vezes. Mas também sou metamorfose ambulante. Não tenho medo de mudar de ideia. E ficar em cima do muro também é uma escolha. Também gosto da contradição. E a minha maior contradição é querer ser coerente. Sou deveras radical, mas também flexível, taí, mais uma contradição e incoerência.  Quer mais um exemplo: eu sou meio cética, mas leio horóscopos e acredito em signo, mapa astral. Tem muita coisa que bate, como o recadinho de hoje aí.

A verdade é que sou humana. Tenho lá minhas verdades e convicções. Sou uma mulher de palavra. O que digo e escrevo procuro cumprir. Por isso admito a minha total contradição. Eu busco a verdade, mas às vezes meio que deixo para lá, porque sei que nunca vou saber de fato o que aconteceu quando eu não estava lá. E o que eu souber será sobre meu ponto de vista. Adoro ter controle das coisas, não para manipular, mas para cuidar e até me defender. Informação até pode ser poder, mas para mim funciona mais como alívio, sensação de cuidado e aproximação da verdade.

Essas são minhas essências. O que me mantém coerente de que sou a mesma pessoa nesses 28 anos é que eu posso mudar de caminho, mas não mudo a essência. Apenas agrego experiências que me transformam e me dão novas ferramentas para encarar o mundo do jeito que eu penso, do jeito que eu sou.

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Passar um feriadão na praia… há quanto tempo não faço isso! Tô me sentindo uma pessoa tri normal e que consegue fazer as coisas que gosta e que planeja. E isso não é porque trabalho na maioria dos feriados. Até que andei tendo umas folgas em alguns, mas eu estava aprisionada.

Engraçado, só eu podia me livrar das amarras, mas cada vez me prendia mais a elas e esperava que elas me libertassem, que elas me ajudassem a realizar tudo que eu estava já tão cansada de sonhar porque sabia que eram só sonhos. E o mais engraçado é que eram coisas bobas como essa: passar um final de semana ou um feriadão na praia.

Por que será que eu achava que aquilo tudo podia ser maior que as coisas mais simples e banais da vida? Eu achava que o inalcançável é que traria felicidade, mas o que nos deixam felizes são as coisas comezinhas do dia a dia. É no dia a dia que se constrói a tal felicidade, assim como uma entidade. Percebendo aos poucos para no fim se dar conta e olhar para trás e enxergá-la como algo grande, porque esteve presente todos os dias, ainda que disfarçada de um abraço, de um colo numa noite de tempestade, de ficar protegida a noite toda sentindo outra respiração na nuca, de um arrepio, uma dança, uma ajuda para levar o lixo para fora, de um ombro que fica molhado pelas lágrimas, de apenas deixar-se ficar, permanecer, estar…

O ódio precisa de dedicação, tanto quanto o amor.

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