Finalmente conheci a Espanha! A quente e calorosa Barcelona me recebeu entre os dias 18 e 23 de outubro. Pela primeira vez viajei sem me programar muito. Só faço isso quando vou para algum lugar que tem alguém morando e vai me ciceronear pela cidade. Na viagem de sete horas de trem li as indicações resumidas do Guia Criativo para o viajante independente na Europa e mais umas olhadadelas no guia da Lonely Planet em francês que peguei emprestado na biblioteca pública de Marseille. Fiz um pequeno roteiro para cada dia com o essencial, sem encucar com aquela lojinha ou museu que o guia trata com a mesma importância de lugares principais e que no fim acaba só tirando tempo da sua viagem para procurar o tal lugar. Mas isso teve um preço, poderia ter dado uma esticadinha em Figueras para conhecer o Teatro-Museu Dalí. A viagem tinha escala nessa cidadezinha há duas horas de Barcelona. Como não fui eu quem comprei as passagens e não as vi até a hora de embarcar, acabei perdendo a oportunidade de adiar um pouco a ida ou o retorno para conhecer esse universo surrealista. Mas no fim, foi uma das viagens mais agradáveis que fiz, vi tudo o que eu queria com tempo de sobra e ainda descansei, alguns dias dormi até mais tarde ou fiz a siesta dos espanhóis.

Mas nunca imaginei que eu teria tantos problemas para me comunicar na Espanha (tá bom que eu já desconfiava nos últimos tempos) ! Para começar espanhol se parece muito com o português e sempre tive interesse pelo idioma. Já fiz cursos, tenho colegas sul americanos e entendo tudo que eles falam quando conversam entre si, mas simplesmente não saía nada da minha boca que não fosse francês. Eu até tentei, mas misturava tudo, tinha receio de dizer algo que fosse em português e não em espanhol e muitas vezes era a mesma palavra. Mas minha mente e meus “pensées” em uma língua que não a minha maternal já estão condicionados ao francês. Aí recorria a língua universal: o inglês, mas também não saía muito. Acho que se eu tivesse falado português teria simplificado tudo, mas enfim, eu queria hablar español, ou melhor castellano, já que em Barcelona a língua mesmo é o catalão. E o pior era entender, falar algumas palavras soltas e ouvir as pessoas irritadas porque eu não tinha explicado que ia tomar o café na padaria e não levá-lo, depois que ela já tinha colocado no copo de isopor. E ele que dizia enquanto eu falava com as pessoas: tu parle français, Fernanda!

Ficamos hospedados num hostel na Carrer Hospital, bem pertinho de Las Ramblas. É um hostel meio diferente. Na verdade é um apartamento com vários quartos, uma sala e cozinha. Na chegada tu telefonas, a pessoa vêm até o hostel, tu pagas ele te dá as chaves. Depois na hora de ir embora é só deixar a chave na porta. A vantagem é ficar em um quarto privado e ainda ter uma estrutura como “estar em casa”. No nosso caso o banheiro era coletivo, mas sempre limpo (uma pessoa vinha todos os dias para limpar), nunca teve fila para tomar banho e só não era silencioso porque era no centro, mas no apê era tranquilo. A desvantagem: no último dia um casal francês com uma criança pequena ficou no quarto ao lado, a partir das 5h da manhã essa criança começou a chorar como se estivesse sendo espancada e assim ficou por mais de uma hora, com certeza. Num hostel normal não aceitam crianças, eu acho, mas vire e mexe tem os festeiros para te acordar.

Port Vell

Chegamos no meio da tarde e ao descer na estação de metrô já dei de cara com o mercado de La Boqueria, há uma quadra do hostel. Logo o primeiro passeio foi Las Ramblas, de cabo a rabo, Plaça Catalunya de um lado, Monument à Colón do outro e Port Vell e o espetáculo do sol no fim da tarde. Depois de explorar os arredores, sem querer entramos na Carrer d’Avinyó, rua onde Picasso frequentou uma “maison close” e que talvez o tenha inspirado a criar “Les Demoiselles d’Avignon”, obra inaugural do cubismo. E assim descobrimos as pequenas ruelas do bairro gótico onde comemos tapas com sangria num charmosinho bar que dizia que tudo era “hecho com mucho amor”.

No dia seguinte uma passadinha em frente ao Palau Güell, primeira grande manifestação artística de Gaudí (10 euros para entrar). Depois fui ao Museu Picasso onde andei por mais dessas ruazinhas tranquilamente, olhando as lojinhas, até me deparar com a fila de espera de 40min para entrar no museu. Mas valeu a pena ver as maravilhas que ele pintava quando tinha apenas 17 anos. E todas as suas releituras de As Meninas, de Velázquez. Depois ali pertinho o Parc de la Ciutadella, com o Castell de Tres Dragors, uma fonte enorme (parecida com o Palais Longchamp aqui de Marseille) e o parlamento catalão. Do ladinho o Arc do Triomphe, bem diferente do de Paris e de Marseille. Depois caminhando ao redor me deparei com o Mercat de Santa Caterina, o atravessei e cheguei na Cathedrál, de arquitetura gótica, claro . Perto dali descobri uma loja só de leques! Um mais lindo que o outro, tinha uns de renda de 250 euros! Como não tive sucesso com as castanholas, acabei comprando um leque para mim. Segundo a vendedora, uma brasileira, as espanholas usam mesmo o leque contra o calor – o que constatei mais tarde numa danceteria. Continuei a marcha e cheguei a praça Sant Jaume, onde fica o Palau de Generalitat. Segui andando no que eu achava que era a direção do metrô e acabei nas Ramblas, na rua em face do hostel. Dei uma olhada nas lojas e voltando para uma pausa descobri ao ladinho um brechó. De cara já saquei uma saia de 3 euros, uma blusa de 7 e um casaquinho bem colorido, bem espanhol por 8 euros! Dava para passar e “gastar” muito mais tempo nesse brechó!

À noite hora da tradicional paella na tradicional Plaça Reial e mais sangria. Resolvemos dividir uma sobremesa para provar algo espanhol. Pedimos creme catalão e a surpresa: era o mesmo crème brûlée! Só um pouco mais amarelo… sem graça, já que é totalmente francês ça! Depois a programação é caminhar pelas ruazinhas para descobrir a noite, que depois da janta ainda é bem vazia…

Sagrada Família

Terceiro dia, hora de enfim conhecer as obras de Gaudí e que atraem todo mundo à Barcelona. Primeira parada: Sagrada Família. Parece aqueles castelinhos que a gente faz com areia molhada na praia. Sinceramente não é bonita, mas sim, é grandiosa. Fila enorme, onde já se conhece as façadas de cada lado, já que a espera vira quadra, mas até que andava rápido. Comprei a entrada com a casa Gaudí e sem os elevadores (que dá para pagar separado depois se você decidir subir, as escadas estão interditadas). Por dentro, ao estilo basílica, bem propícia à visitação da multidão que a invade todos os dias, cada lado uma decoração diferente. Tudo é muito diferente! O teto, as escadas, as colunas em cada etapa com formatos diferentes, surpreendente! Se tem acesso também à pequena escola de tijolo no formato de oca de índio projetada por Gaudí para os filhos dos trabalhadores, seu escritório, maquetes, máquinas que mostram como foram esculpidas as colunas e o túmulo do mestre que está na cripta e se vê por um vidro, do alto.

Teto da Sagrada Família

Depois Parc Güell, uma subida e tanto até chegar as escadas rolantes em plena rua que ajudam a subir até a colina onde fica mais uma obra maluca e tortuosa de Gaudí. É onde fica a casa onde ele morou nos últimos anos e que hoje é um museu, onde móveis projetados por ele estão conservados. Bom lugar para viver, eu diria. O parque é lindo, só não mais agradável porque óbvio, milhões de turistas, principalmente nos famosos bancos sinuosos com pedacinhos de azulejos, a marca de Gaudí. Depois a Manzana de la Discórida, com três casas famosas, a principal delas a Casa Batló, de Gaudí, com sacadas em forma de caveiras, a casa Amatler e a Casa Lleo Morera. A casa Batló é aberta à visitação pela bagatela de 18 euros! Acabei não entrando. Perto dali fica um de seus prédios famosos, La Pedrera, que acabei deixando para ir outro dia pois eu pretendia visitar por dentro. Voltando a pé e logo se está na Plaza Catalunya novamente.

Pausa no mercado de La Boqueria para comprar chorizo, presunto ibérico, queijo, vinho, azeitonas e pão para o “apéro”. Enfim, adaptamos as habitudes francesas. E também os itens para fazer café da manhã no hostel e encontrei adivinhem? Dulce de leche! E bom, se eu achava que a Argentina com suas media lunas e o tango já tinham pego muita coisa da França, em Barcelona tive certeza que também é cópia da Espanha com seus empanados e doce de leite. À noite, show de Flamenco. Queria muito mesmo ver e descobri no guia um lugar que a entrada era apenas 6 euros e tinha espetáculos a cada 1h – tem outras casas de show onde o ingresso varia de 30 a 50 euros. No fim, a sala Tarantos é um pega turista, o show dura 30 min e os outros 30 min são para encher a sala para o próximo espetáculo. Tem dançarina e a banda, mas quase uma amostra, que não é grátis. Andando pelas ruazinhas entramos num clube que tinha uma banda de jazz, bem boa. Mas chegamos cedo para os padrões espanhóis. Pelas 2h quando fomos embora é que o lugar tava começando a bombar.

Parc Güell - Gaudí

Dia seguinte Fundació Joan Miró no Parc Montjuic e mais uma fila, mas que foi a mais curta de todas e valeu muito a pena. Acho que não conheci muito da coleção permanente, mas a exposição L’Escala de la Evasió trazia uma cronologia completa do artista, desde seus primeiros quadros da fazenda da família até séries completas que consagraram o artista catalão. Segundo o site da Fundação, “mais de 50 obras de coleções públicas e privadas de todo o mundo”. Muita sorte. A visita deve ter durado umas boas 3h. Mas do lado de fora o tempo não estava colaborando muito. Uma volta num dos jardins do parque, meio a esmo, sem um lugar para comprar qualquer coisa para comer e com a chuva iminente, voltamos para o hostel e fizemos a siesta. Achei que o castelo de Montjuic não era assim tão interessante e pegar o bondinho em dia nublado também não, se alguém já foi pode me dizer o que perdi…

Bar Celta Pulperia

Acabamos saíndo para a noite barcelonesa à meia-noite. Finalmente entramos no ritmo! A essa hora tinha gente nas ruas, nos bares. Uma cerveja no rock e havy metal bar Tequila, cerveja na rua comprada dos indianos por um euro e uma parada por um policial por estarmos bebendo na rua. Acabamos saíndo das estreitas ruas e saboreávamos a cerveza pelas Ramblas quando o policial perguntou: “espanhol, inglês”? E em inglês ele disse que beber na rua dava multa. Perguntei se vender na rua dava também, afinal ninguém estava incomodando as dezenas de vendedores. Mas enfim, melhor não engrossar. Dissemos que íamos colocar no lixo, metemos no bolso, andamos mais um pouco e continuamos bebendo. Danceteria e aí me reencontrei com o jeito quente e latino. Pessoas dando show ao dançar salsa, gente calorosa e que me lembrou muito o jeito brasileiro, tão diferente na França… E a festa começa tarde, muito tarde mesmo.

Último dia, mais compras em La Boqueria para um piquenique e depois caminhamos até a Casa Milá, La Pedreira. Mais uma bizarrice de Gaudí. Acabei desistindo de entrar, 15 euros. Faz a conta quanto sai visitar todos os lugares de Gaudí?! Acho que a Sagrada Família foi a escolha acertada. Almoço-piquenique no Parc de Joan Miró, vista da Plaza de España e arredores de um shopping que tem logo ali à frente e seguimos pela avenida das fontes que dá no Museu de Arte Catalã, um belo prédio e tudo à volta magnifíco. Ao pôr-do-sol começa o espetáculo das fontes mágicas. Simplesmente sensacional! Efeito de luz e música na fonte principal e todo o prédio do museu tem cascatas de água que descem pelo parque que fica numa colina também. Lindo, lindo, lindo.

Para encerrar a noite, a semana, a viagem, tapas no balcão no Bar Celta Pulperia, com vinho branco servido no tradicional copo que é uma tigelinha, as mesmas estão coladas na parede atrás de cada banco para colocar o casaco. Comemos a tradicional tapas de polvo, e o bichão tá lá, para todo mundo ver. Também patatas bravas, lulas bebê e tortilla. Um último gostinho do melhor de Barcelona e da Espanha e uma das minhas melhores viagens.