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Já disse aqui que acredito que todas as músicas tenha origem nos Beatles pois sempre escuto alguma coisa e depois descubro que era deles inicialmente.

No final do ano passado li O Cortiço, do Aluísio Azevedo e descobri que a relação lesbiana de Engraçadinha e Letícia em Asfalto Selvagem, do Nelson Rodrigues nasceu ali, com Pombinha e Léonie.

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Finalmente estou lendo Dom Casmurro, de Machado de Assis. Acho uma falta grave no meu currículo. Também só li Memórias Póstumas de Brás Cubas neste ano. Bom, pelo menos não saio da graduação sem ter lido esses clássicos.

A edição que comprei o ano passado da Editora Record é de uma coleção chamada Descobrindo os Clássicos e diz que tem a versão original da obra, então promete!

Mas a minha primeira decepção foi descobrir que a Capitu se chama na verdade Capitolina. E esse tipo de literatura diário, memórias póstumas ou recordações antigas me faz lembrar a leitura de um blog. Não consigo mais desassociar uma coisa da outra. Foi assim quando li A Casa de Carlyle e outros esboços, da Virgina Woolf.

Mas ainda estando na página 64 de Dom Casmurro já arrisco meu palpite se Capitu traiu ou não Bentinho. A grande chave extra-literária do livro que o tornou clássico.

Eu acho que nem Machado de Assis sabia. Já escrevi várias histórias e por não saber que final dar, deixei que a dúvida fizesse sua parte. Machado escreveu já com a intenção de não revelar se houve de fato a traição de Capitu. E como é tudo escrito do ponto de vista de Bentinho… Fato é que estou preparada para ler e continuar sem a resposta. Para mim a verdade é esta que coloco aqui. Depois que eu terminar de ler vamos ver se mudo de idéia.

Não sei que tipo de sentimentalismo tem existido dentro de mim ultimamente que me faz chorar ao assistir o quadro Agora ou Nunca do programa do Luciano Huck.

En su mundo no hay nombres ni pasado
ni porvenir, sólo un instante cierto.

(El otro tigre – Jorge Luis Borges)

A parte ruim da nova rotina é não poder mais assistir novelas. Por enquanto não está dando nem para ver Vale a pena ver de novo. E a porcaria, mas que eu acompanhava, da América vai ser substituída por Belíssima, que promete. E agora o folhetim das nove tá na finaleira, essa parte é sempre boa. Sábado que vem fico em casa só para ver a reprise do último capítulo.

Hoje enquanto me conectava na internet fui até o quarto e quando começou a discar vi que o som estava alto. Ninguém merece, meus vizinhos que o digam, ouvir o iontuuu, sei lá como é aquele som inconfundível da internet discada.

Se o Google fosse uma seita eu já seria sua adepta.

A mais nova deles que baixei foi o Google Desktop. É incrível isso. Fico até sabendo quando os blogs que leio atualiza e se quiser nem preciso entrar, posso ler ali mesmo na barrinha lateral. Só falta notícias e a previsão do tempo do Brasil, mas enquanto isso fico sabendo das últimas na Espanha. E o bloco de rascunho é maravilhoso… Me economiza ficar abrindo bloco de notas.

Experimenta que vale a pena.

La historia que ha narrada aunque fingida,
bien pude figurar el maleficio
de cuantos ejercemos el oficio
de cambiar en palabras nuestra vida.

(La Luna, de Jorge Luis Borges)

Agora estou conseguindo ler Borges…

O que há de melhor na minha nova rotina é poder deixar o sol e o vento entrar pela janela do meu quarto trazendo o cheiro de um novo dia.

Se meu Trabalho de Conclusão do curso de Jornalismo fosse uma tese de mestrado eu conseguiria prová-la com a 5ª Bienal do Mercosul. Nele, disse que páginas de um jornal diagramadas são obras de arte. Hoje fui no Museu de Comunicação Hipólito José da Costa e lá estavam as páginas diagramadas por Amilcar de Castro como obras de arte.

Foi legal ver a evolução do Jornal do Brasil (história essa que pode ser conferida no livro Dois estudos de Comunicação Visual, de Washington Dias Lessa) e ver como ele introduziu aos poucos as mudanças. Algumas coisas ainda primitivas e confusas, mas era a realidade da época. E no Suplemento Dominical do JB já o uso de brancos, tendência hoje mundial do design e adotada por Zero Hora no último dia 12 de setembro.

Amei as páginas diagramadas do Manifesto Neoconcreto e li todo o texto. Falava de Modrian e Gestalt, que também usei no meu trabalho e cada vez percebo mais que há um mundo imenso para mim descobrir na linguagem visual e quem sabe conseguir enfim, ter uma teoria sobre a diagramação. Pelo menos meu mestrado nessa área acho que está garantindo… O trabalho de conclusão foi um imenso desafio devido ao pouco material existente, mas eu não vou me cansar de procurar.

No MARGS, além dos “desenhos” de Amilcar, já que ele diz que não é pintor, miniaturas de suas esculturas, bem como eu queria para levar para casa. Invejo os donos dessas coleções particulares. E uma descoberta, brincos com réplica de suas obras. Fiquei fascinada. Eu que nunca fui muito de dar importância para jóias, amei os brincos! Faz meses que procuro por pares desses diferentes e não encontro nada nas lojas que me agrade, de bijuteria, é claro, pois essas são as únicas peças que não saio de casa sem, e agora encontro essas raridades! Eu quero!

“Eu sou um gráfico, como o Mondrian, e prefiro fazer só o que eu sei fazer.” Amilcar de Castro

Detesto as coisas forçadas. Há horas me irrita os lotações nas paradas fazendo sinal de luz e se achegando devagarinho para ver se tu desiste do ônibus e entra nele.

Onde espero o ônibus para ir do trabalho para casa, o único lotação que passa ali não me leva ao meu destino. Será que eles não pensam nisso?! Uma hora dessas vou acenar para eles pararem, vou perguntar se ele me leva até onde quero. Como a resposta será negativa, vou dizer: “então porque fica implorando para que eu entre no teu coletivo!”

Como se não bastasse isso, vem o Orkut com a perguntinha cretina: “Você é solteiro? Diga a todos o que você procura, assim o orkut pode te ajudar!”. Pô! Será que não pensam que eu quero o benefício da dúvida?!

Agora no Fabuloso Destino de Fernanda Souza só está faltando mesmo um Nino Quincampoix.

A sexta-feira foi um dia cheio! Tive uma jornada de três turnos tirando fotos com a galera do trabalho que deixei neste dia… e ainda não consegui tirar com todos.

Rolou muitos desejos de sucesso sinceros! Uma festinha surpresa… conseguiram me pegar! Muitos risos e lágrimas… Vou sentir falta de todo este pessoal, com certeza… mas me esforçarei o máximo para não perder o contato, pois além de colegas, tenho muitos amigos.

Eu sou uma pessoa que cria raízes, que gosto de deixar os lugares com a minha cara. Quando tirei as fotos, os bichinhos, os cartazes da minha mesa que eu vi aquele vazio e aí sim notei que realmente eu estava deixando aquele lugar. Está lá na minha cozinha a canequinha companheira do trampo… ela não combina ali.

Mas chega de nostalgias. Segunda-feira começa uma nova etapa na minha vida. Sabe quando a gente diz “um dia eu chego lá”. Pois esse dia é dia 24 de outubro de 2005 para mim. Éééé tá na hora de começar a colocar outros sonhos na cabeça!

No final era uma mulher grávida que tinha caído no Arroio Dilúvio na quinta-feira.

Saiu no clicRBS

Essa sorte do orkut é um tremendo besteirol. Mas depois que percebi que pode ser até engraçado, comecei a olhar. Mas nada supera essa:

Sorte de hoje:
A filosofia de um século é o bom senso do próximo

Pela primeira vez pude sentir o horário de verão hoje. Saí ainda dia do trabalho, com sol alto, tranqüila… indo para casa. Estou chegando na Ipiranga com a Getúlio e vejo que tem uma movimentação próximo ao Dilúvio… e meu ônibus está passando. Bom, eu já estava curiosa mesmo… então fui ver o que se passava. Olhei para as águas e nada de anormal. Perguntei para o povo o que era me disseram que uma crinça tinha caído nas águas, depois me disseram que era um chapado.

Bom, resolvi conferir a informação oficial, até porque eu já estava espalhando a notícia que nem sabia se era verdadeira para outras pessoas. Perguntei ao bombeiro e ele me disse que parecia que “um chapado que achou que era peixe resolveu nadar”.
Olhei em volta e já tinha até vendedor de casquinha batendo tac, tac na madeira. Algumas pessoas que pareciam que esperavam por um parente… já estava confortavelemente apoiadas na ponte e pareciam que só arredariam o pé dali quando vissem o corpo sendo içado da água.

Saquei o celular da bolsa, liguei para a redação e avisei do fato… E fui me embora. Minha tarefa estava cumprida.

Amanhã será meu último dia no jornalismo online. Segunda-feira começo a ser diagramadora.

A notícia esperada há quase três meses me pegou um pouco de surpresa agora. Mas vou fazer o que sempre quis! E isso é muito bom.

Me rendi aos sertanejos também. Fui assistir hoje Dois Filhos de Francisco – A História de Zezé Di Camargo e Luciano. Eu sempre digo que gosto de todo tipo de música, com execeção de sertanejo. Mas confesso que na época que surgiram Leandro e Leonardo e Zezé com o seu É o amor, eu sabia todas de cor (na verdade ainda sei), cantava pela casa e quase rasguei as fitas K7 que eu tinha deles, de tanto escutar.

O filme, como não deve ser novidade, me emocionou, além de ser bem feito. Gosto das histórias de pais, assim como gostei do livro Quase Memória e do filme As Invasões Barbáras. Mas esse me encantou por ser Francisco um pai que acreditou nos sonhos de seus filhos, e mais do que isso, fez o sonho acontecer.

Foi insuportável encarar a luz quando saí da sala escura. Procurei logo o banheiro. Estava com o rosto inchado e vermelho. Eu chorei do início ao fim do filme. Constrangida fiquei numa pequena fila, mas ali no rosto das mulheres, dava para ver que também choraram. Pior foi sustentar esta cara com as lágrimas ainda escorrendo, no ônibus de volta para casa.

Lembrei dos anos que meu irmão nasceu e das dificuldades que passamos. Desempregada minha mãe passava os dias com ele no hospital, ele ficou lá por quatro meses e em casa começou a faltar as coisas. Por uns tempos passamos a arroz e feijão, isso não é passar fome, mas para mim que não gostava de feijão era terrível. E quando minha mãe não conseguia voltar do hospital, eu preparava massa com sardinha, a única coisa que sabia cozinhar. Minha irmã deve ter alergia a esse prato, de tanto que comeu. Por isso entendi a fome de Nelson Rodrigues quando li A Menina sem Estrela e por isso chorei muito assistindo Dois filhos… O pai da minha mãe, na época, tinha um mini mercado. Com as dificuldades, fui fazer compras lá. Mas ele mandou a conta depois e qualquer semelhança é mera coincidência.

Todas essas coisas calaram no fundo. Admiro a garra de Francisco. Cheguei a julgar que com meu pai não tivera a mesma sorte. Mas hoje tenho a minha profissão, minha
casa, graças a ele, graças a ele ter se mantido acordado. E sei que agora, mesmo com um pezinho atrás, ele acredita no meu sonho. E minha mãe foi aquela que sempre me deu força e ela ainda não parou de arrumar a casa que tem melhorado com o passar dos anos.

Mas este foi só um momento, uma fase ruim da minha vida. Para Zezé e Luciano foi uma trajetória de superação e conquistas. Mas para muitos brasileiros é a realidade, e toda a história de suas vidas. Às vezes sinto vergonha desse período difícil que tive na minha vida. Mas acho que a gente não deve se envergonhar das coisas que nos dão firmeza de caráter, e principalmente, embora esqueça às vezes, a dar valor ao que tenho.

Quinta-feira saí para tomar umas e outras e quando cheguei em casa constatei a inevitavél presença dos pássaros

Sabe-se que um homem está sendo infiel quando ele troca os tênis por sapato, ou quando troca o sapato velho por um novo.


Consegui sair cedo do trabalho, resolvi ir até o Cais do Porto e dar uma volta na Bienal. Fomos Tahi e eu, a pé, da Erico até o Gasômetro. Pegamos um sol e tiramos todo o mofo do corpo, além de esticarmos as pernas, além da conta, eu diria agora, já que elas doem. Na 4ª Bienal também fui com essa amiga no Cais e tiramos muito sarro dos outros naquele labirinto de espelhos onde ficávamos no centro falando das
pessoas que estavam nos corredores e elas não sabiam de onde vinham as vozes.

Eu queria ir na Bienal com mais tempo, com preparação. Mas resolvi ir despretenciosamente, só para aproveitar o dia de sol e as portas dos Armazéns abertas para o Rio. E já que era Dia das Crianças, eu e a Tahi nos divertimos muito. Não olhamos todas as obras, não ficamos pensando sobre elas além dos risos, mas desfilamos lindas e maravilhosas naquela passarela onde é possível se ver onde nossos pés pisam. Relembramos os tempos de cursos de manequim e modelo (que eu não fiz), andamos num passo rápido, pois correr seria peraltice demais, vendo nossa própria imagem no chão. Não entramos na casa rosa porque a fila estava grande e eu
pretendo voltar outra hora para ver tudo de uma forma menos lúdica. Mas assistimos ao pôr-do-sol ouvindo o rádioteatro “A sombra da rua”, nos surpreendemos com a idéia genial e simples da obra Mapamundi BR e queríamos levar para casa muitas obras que se quer entrariam pela porta. Mas o legal foi quando entramos numa instalação que tinha uma daquelas plaquinhas laranjas dizendo “Recomendado para maiores de 18 anos”. Lá dentro fotos de algo que só os homens têm. Engraçado que todo muito fica meio constrangido e a gente riu das piadinhas clichês que os amigos faziam uns aos outros dizendo: “ah fulano, esse tu vai gostar”. A idéia do cara não me convenceu. Para mim era o próprio artista que queria apenas mostrar o seu bastão, mas fato é que depois das boas risadas que a gente deu, cada vez que víamos uma placa dizendo “Não fume e não toque nas obras” a gente achava que era mais uma proibida para menores e ficava faceirinha… Engraçado que a mesma imagem, na versão feminina, estava exposta numa outra obra, bem no centro do Armazém, para incredulidade de um menino que chamou a mãe para ver. Mas dava para pagar os pecados depois numa sala com sofás confortabilíssimos com som de música sacra.

O que não dava para agüentar era um bando de gente posando para fotografia em frente às obras como se estivesse num ponto turístico. E engraçado era o banheiro, ao ar livre. Tinha um biombo e da “porta” vi as pias ao léo, jurei que ao adentrar encontraria os vasos sanitários sob o céu… mas não, eram banheiros ecológicos. Só que estava parada esperando a minha amiga e teve gente que chegou e disse: “e aqui, o que é?”. Pensando que era mais uma obra. É… a arte contagia!

Quero voltar a Bienal para ver tudo melhor. Mas achei muito legal, de qualquer forma, pois a arte também serve para diversão. Acho ignorância quem fala “isso até eu fazia”. Então por que não fez? Não é uma crítica convincente. O que torna isso arte é a boa explicação que o artista tem para sua criação e a arte contemporânea às vezes nem se explica. Mas quem não gosta, que não me venha com esse argumento pobre e vá no Santander e no MARGS, pois lá está a parte histórica, com os concretistas, neo-concretistas e outras escolas clássicas. Embora não dê para perder Amilcar no Cais…

Quando pequena, sempre ficava no corredor dos brinquedos no supermercado enquanto a mãe fazia as compras. Meu irmão tem repetido a cena depois de tantos anos. E segunda-feira voltei a esta encantada seção do super para comprar o presente do Gabriel. Por ele, ganharia mais um carrinho, de preferência da Hot Wells. Ele está com nove anos, achei que deveria ganhar um brinquedo mais criativo… e fui atrás de um jogo. Engraçado, esta é a parte intocável, tudo lá, igualzinho, ou quase, como na minha época. Os jogos eram os mesmos. Comprei para ele o Cara a Cara, que é um dos poucos que não cuidei, pois os outros estão guardados, lá na praia. Eu adoro esse jogo, me senti comprando um presente com segundas intenções, e de fato, joguei muito com ele. Só que para mim a mulher da cabelo branco e lábios carnudos e vermelhos ainda é a Sônia, e não Adriana. Eles mudaram alguns nomes para ficar mais atual… O Henrique virou Diego e por aí vai…

Este foi o feriado que mais lamentei ter que vir trabalhar. Meu irmão disse que não era justo. E ele tem razão. Ora, eu deveria passar o dia brincando com ele. Durante o expediente fiquei escutando a Adriana Partimpim e coloco aqui uma música em homenagem ao meu irmão Gabriel e a todos nós, adultos, que como dizem, sempre trazem uma criança dentro de si. É bom prestar atenção na letra e lembrar que ainda não descobrimos as respostas para algumas dessas perguntas e simplesmente a esquecemos. Feliz Dia das Crianças para todos.

Oito anos
Dunga / Paula Toller

Por que você é Flamengo
E meu pai Botafogo
O que significa
“Impávido colosso”?

Por que os ossos doem
enquanto a gente dorme
Por que os dentes caem
Por onde os filhos saem

Por que os dedos murcham
quando estou no banho
Por que as ruas enchem
quando está chovendo

Quanto é mil trilhões
vezes infinito
Quem é Jesus Cristo
Onde estão meus primos

Well, well, well
Gabriel…

Por que o fogo queima
Por que a lua é branca
Por que a terra roda
Por que deitar agora

Por que as cobras matam
Por que o vidro embaça
Por que você se pinta
Por que o tempo passa

Por que que a gente espirra
Por que as unhas crescem
Por que o sangue corre
Por que que a gente morre

Do que é feita a nuvem
Do que é feita a neve
Como é que se escreve
Réveillon

Não torço mais o pé
descendo a escada de quem não me quer.

Eu ainda estou me perguntando o que o meu pai quis dizer quando falou que eu tenho que me preocupar com outras coisas quando lhe falei que queria fazer mais uma graduação.

Já faz mais de um mês isso, e na hora fiquei tão boquiaberta que nem perguntei o porquê.

Acho que é por isso que não tenho os inúteis dentes cisos. Já devo ter nascido com juízo. Para ouvir um conselho desses do meu pai…

Ou o mundo é mesmo pequeno como dizem
Ou é a gente que circula demais

Medo de se apaixonar
Fabrício Carpinejar

Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve. Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar. Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz. Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada.

:::

Na verdade tenho medo de sofrer o que já estou acostumada… Sei que essa palavra deveria ser riscada do meu vocabulário, mas eu a vejo sempre tomando proporções maiores, vindo para cima de mim, me sufocando, numa alegoria monstruosa.

Quando o meu maior medo aconteceu, tomou forma concreta e real, eu respirei alivida, achando que agora me livraria do medo para sempre. Eu não contava que aquilo era apenas um trovão, que o raio viria mais tarde, e o que ele cai sim, cai duas vezes no mesmo lugar. É um diâmetro. Lembram-se da detestável matemática? Um diâmetro é duas vezes o raio.

Depois disso, só me restou dar braço ao medo e torná-lo meu companheiro. Como um amigo que me alerta sobre os perigos. Já me entendo com o medo, do mesmo jeito que me entendo com o tédio, a solidão…

Paulo Coelho, embora polêmico, diz que o medo paralisa nossas ações. Paralisa sim, mas paralisa todas, as boas e as ruins. Ter medo é não correr riscos.

Vire e mexe eu dou uma passada no blog do Fabrício Carpinejar e sempre tem coisas que me tocam. Não sou a única, há uma legião de pessoas se emocionando lá.

Então sempre que gosto de alguma coisa, recomendo. Mas tem um que é tão para mim que vou postar aqui em cima.

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