O primeiro turno das eleições na França será no próximo domingo. Não vou me atrever falar de política, pois os franceses discutem política todo o tempo, entre amigos, com quem quer que seja e com propriedade. Nem o presidente escapa. Em situações públicas as pessoas não o tratam como uma estrela de cinema, mas fazem questionamentos, reivindicações, discutem, conversam sobre seu país com aquele que o comanda. Eles se informam, tem argumentos. E nós que no Brasil preferíamos dizer que é um “assunto que não se discute” mergulhamos no desconhecimento e ignorância. E aqui nem é o espaço. Mas vou dividir algumas observações do que vejo que é diferente no processo do que acontece no Brasil e uma contextualização para quem não sabe nada sobre o cenário político francês.

A sociedade francesa ainda é uma sociedade dividida entre esquerda e direita, embora como quase em todo os países democratas ocidentais, os candidatos principais são quase centristas, moderados, eu diria, caso do atual presidente Nicolas Sarkozy (direita) e François Hollande (esquerda socialista). Os mais radicais são Marine Le Pen (direita) e Jean-Luc Mélenchon (esquerda). Como em todas eleições há outros candidatos menos expressivos. Neste pleito são 10 ao total.

Escutei o horário político na rádio, ao contrário do Brasil, ele não passa em todas as estações ao mesmo tempo e não consegui identificar uma regularidade de horários. Todos os candidatos tem um curto e mesmo tempo para sua propaganda.

Para ter uma ideia do radicalismo, Marine Le Pen, filha de Jean-Marie Le Pen, que comandou até então o partido Front National, disse em seu horário político que a França é para os franceses e que os estrangeiros têm o seus países. Contra imigrantes, homossexuais prega um nacionalismo ultrapassado e conservador. E mesmo assim é dela o terceiro lugar nas pesquisas. É por causa das barbaridades do Front National que você jamais vai encontrar camisetas ou qualquer outra coisa com a bandeira da França, nem em souvenirs para turistas. Portar a bandeira é sinônimo de extrema-direita.

Por outro lado,  Jean-Luc Mélenchon, que nasceu no Marrocos, em seu discurso em Marseille, uma das cidades onde há muitos imigrantes e que ainda ocupam um lugar no centro da cidade mas que aos poucos estão sendo enviados para as cités, citou uma história da criação da cidade. Segundo a lenda, a cidade nasceu de uma história de amor. Como costume, a filha do rei deveria escolher seu futuro marido durante uma festa. Na ocasião, a cidade hospedava alguns gregos e ela escolheu justamente um dos estrangeiros. Em seu programa político na rádio falou sobre o meio-ambiente.

François Hollande é o candidato do partido socialista escolhido pela população em uma prévia organizada ano passado. A ideia de ser o mais democrático possível.

Aqui as pessoas recebem uma espécie de titulo de eleitor mais ou menos um mês antes das eleições. Hoje chegaram as cédulas, os eleitores recebem o nome de cada candidato em papéis separados. No dia das eleições, para agilizar eles já podem levar seu voto pronto, basta passar pelos procedimentos habituais, colocar o nome escolhido num envelope e depositá-lo na urna. Além das cédulas, o programa de cada candidato, assim o eleitor pode se preparar comparar os candidatos e suas propostas. Achei bem organizado. O jornal Le Monde também fez um infográfico comparativo de programas. Veja aqui.

No Brasil para ter todos os programas é preciso ir no comitê de cada candidato, e duvido se encontramos o material conciso.  Para nós brasileiros com urnas eletrônicas, o sistema pareça um pouco ultrapassado. Ah, o voto não é obrigatório.

Como gosto de comunicação visual, achei bem interessante um artigo no site do Liberation em que analisa os cartazes e folhetos de campanha dos candidatosde uma forma até semiótica.

De um modo geral as pesquisas mostram Sarkozy e Hollande muito próximos, mas não conheço nenhum francês que queira que o atual presidente e sua Carla Bruni continuem ocupando o Palais de l’Élysée. Veremos.

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