As bande dessinées (BD ou bédé) são uma paixão na França. Livros em quadrinhos ocupam boa parte das livrarias e da estante aqui de casa. É possível encontrar BDs sobre tudo: ficção, história, biografias e claro, as clássicas HQs de super-heróis, V de Vingança (V pour Vendetta), Mafalda e “Calvin et Hobbes”. A maioria são em edições de grande formato, com capa dura e papel de ótima qualidade, em cores. Há histórias em vários volumes, formando grandes coleções. Não é um passatempo de guri ou de adolescente mas literatura mesmo. Para mim é uma leitura mais fácil, embora claro, muitas vezes é cheio de expressões cotidianas que não estão no dicionário.

A minha paixão por bédés começou com Aya de Yopougon, de Marguerite Abouet & Clément Oubrerie (ilustrações). Li o primeiro volume na casa de uma amiga, numa noite que a conversa dos homens invadiu a madrugada.  É a história de Aya e suas vizinhas no bairro popular  de Abidjan, en Côte d’Ivoire, nos anos 70. Aya, muito séria, só pensa em estudar para se formar em medicina, enquanto suas amigas só querem sair e namorar no hotel de mil estrelas (um motel improvisado nas mesas da feira ao ar livre), uma delas fica grávida e muitas situações engraçadas são retradas. É um pouco adolescente, mas quem não tem histórias dessa época? A escritora é originária de lá e a gente conhece uma África cotidiana e vivante, longe de guerras e misérias. Vire e mexe tem referência às novelas brasileiras. Além de aprender francês, também aprendo algumas expressões africanas num pequeno glossário que há em cada volume . Tem até uma expressão para criticar os “brancos” que falam com o “rrr” puxado, os franceses no caso. Li até o volume 4, mas são 6 volumes até agora. Quem quiser conhecer, vi na Feira do Livro de Porto Alegre em 2010 que a LP&M publicou o primeiro volume em português.

Journal d’un journal, de Mathieu Sapin é um BD mais sério, mas sempre com humor, ainda mais que retrata o cotidiano de uma redação de jornal, neste caso, o Libération. Mídia de esquerda, Libé tem fama de ser “aberto” e a prova é este livro onde o desenhista teve acesso à todos os setores e reuniões, acompanhou jornalistas em reportagens e entrevistas durante seis ricos meses – ele estava lá durante o tsunami de Fukushima, a morte de Ben Laden e o caso DSK. É a visão de um leigo para quem é jornalista, mas a gente conhece bem o funcionamento do jornal e do site, como as editorias são divididas e essa ideia de liberdade e abertura. Uma vez por ano, por exemplo, escritores são convidados a fazer uma edição do jornal.  Um verdadeiro documentário do tradicional jornalismo francês!

E algo que pode parecer super normal me chamou atenção: os jornalistas vão de metrô para suas pautas. Claro! Em Paris ir de metrô é muito mais prático! Mas nunca tinha pensado nisso. Como no Brasil as empresas de comunicação tem carros com motoristas à disposição dos repórteres e fotógrafos, o que dá um certo status também, nunca imaginei que em grandes jornais da Europa os jornalistas saíam em transporte em comum. Mas aqui funciona e é bem melhor que carro… Já fiz muita reportagem de ônibus e metrô no pequeno jornal que fiz meu primeiro estágio, mas depois na RBS, claro, todo mundo ia de “carro da firma”.
OS BDs, a 9ª arte, também invadem a 7ª arte, o cinema (alguém sabe qual é a 8ª?). Um dos mais célebres é Persepolis, de Marjane Satrapi. Não li o livro ainda, mas vi o filme, biografia da escritora e desenhista no Irã dos anos 80, onde através da história de sua vida, a gente conhece o cotidiano de Teerã em preto e branco e como a revolução leva ao exílio e consequentemente a uma crise de identidade. O filme ganhou o prêmio do juri do Festival de Cannes em 2007. Da mesma escritora, Poulet aux Prunes, chegou ao cinema no início de novembro na França (veja o trailer). No site do IMDb o título aparece em português (Frango com Ameixas), talvez esteja em cartaz no Brasil. Li o livro antes de ir ver o filme. Doce, triste e engraçado é a história de um músico que tem seu instrumento quebrado por sua esposa, com quem vive um relacionamento conturbado. Sem sua paixão ele decide pôr fim à sua vida. Também se passa no Irã, mas aqui o que importa é uma história de amor que no cinema ganhou vida em uma alegoria sensível. O único ponto negativo é que o instrumento, um Tar, no filme é transformado em violino. Mas não tira o brilho da história.

O último BD que li também foi de Marjane: Broderies. Enquanto os maridos fazem a siesta, as mulheres de sua família se reúnem para o samovar, um chá onde elas podem “tricotar” à vontade. Mesmo sendo de uma cultura mais conservadora, elas falam abertamente sobre  homens, sexo, casamento… de como os ocidentais veem o sexo, de simpatias para pegar homem, de como uma mulher que não era mais virgem tentou enganar o marido e acabou cortando o pobre na noite de núpcias. Muito engraçado e não há mulher que não se identifique. De extra aprendi as palavras digamos, popular, para o órgão sexual masculino.

Para os homens há Pascal Brutal, A nova virilidade. O personagem é um cara fortão, de vida de excessos, mas que pensa de vez em quando. Rodeado de mulheres, ele também é bissexual (ops, mas isso não se pode dizer).

São centenas e centenas de BDs, o próximo da minha lista é a série Le Photographe. Através de desenhos de Guibert e Lemercier e fotos do fotógrafo Didier Lefèvre podemos acompanhar a jornada a de uma missão de Médicos sem Fronteira nas montanhas do Afeganistão durante a invasão russa. Vi o vídeo que acompanha o livro e são imagens fortes de crianças, homens e mulheres feridos pela guerra, as extremas dificuldades para embalar medicamentos e acomodar no lombo de mulas que muitas vezes caíam montanha abaixo com toda a carga valiosa em cenas chocantes. Mas se vê o trabalho recompensado no rosto de um adolescente que teve sua face estraçalhada por uma bomba e alguns meses após o atendimento que ele recebeu, mesmo precário, teve seu lindo rosto recuperado.

Outras das minhas leituras aqui