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Na França, além da advertência de beber com moderação em propagandas de bebidas alcóolicas, as propagandas de alimentos vêm acompanhadas da mensagem: “Por sua saúde, mexa-se mais”.

Hoje numa propaganda de Ferrero Rocher notei que tem uma nova campanha: “Evite beliscar entre as refeições”.

Tudo que não fiz nesse Natal de muita, muita comida e em todas às mesas ainda estão à disposição doces, chocolates finos, macarons e frutas secas.

A comemoração mais importante foi o almoço do dia 25 que começou às 13h e terminou às 17h30. Aperitivo com salgadinhos, pistache e cake de azeitona e diversas bebidas: pastis, conhaque, pinot. Sopa de peixe de entrada com croutons e queijo emmental ralado. Depois um prato de ostras e camarão regado a vinho branco de Alsace. No meio para dar uma equilibrada: foie gras com geléia de cebola e de tomate verde (que nós fizemos).

E enfim o prato principal: peru recheado, batatas duchesse (uma batata em flor frita) e champignons. Para acompanhar um vinho tinto de Bordeaux 12 anos. Para terminar salada de alface e queijos. De sobremesa duas tortas: de café e de mousse com cerejas e nougatine e também frutas frescas. Champagne para beber. E enfim o café com “água da vida” de pêra e chocolates finos. A água da vida é uma bebida à partir de uma fruta. Dentro da garrafa tinha uma pêra inteira que cresceu lá dentro e a bebida alcóolica misturada no café perfuma e dá um sabor especial.

Na véspera, a ceia, digamos, foi mais leve, pois não comemoramos o Natal neste dia. Meio estranho para mim, confesso. Começamos com uma sopa de legumes seguido de crepe de salmão selvagem. O prato principal um salsichão branco (à base de leite e não de sangue), tradicional no Natal, acompanhado de maçã assada e marrons. Sobremesa um bolo de chocolate flutuante em uma calda de chocolate. A comilança conseguiu bater essa jornada gastronômica aqui.Para mim só ficou faltando a neve. Como em Marseille é muito raro nevar e aqui em Charente acontece todos os anos tinha esperança. Mas o dia amanheceu gelado com tudo branquinho de granizo e depois veio um sol e o Natal na campanha foi de um dia esplêndido.

A manhã de Natal foi gelada

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Saí hoje para ir num evento que eu não estava muito a fim, mas como estava entediada em casa, resolvi ir. Passando pela Praça de La Plaine vi que tinha um “vide grenier” (esvaziar o sótão), uma feira de coisas usadas e antiguidades, como os bazares de garagem dos americanos.  Desisti do evento e resolvi garimpar o lugar pois é preciso tempo e eu tinha de sobra neste final de domingo de sol tímido.

Acredito que eles acontecem uma vez por mês, no primeiro fim de semana, pois mês passado teve um. Tem em outros pontos da cidade e em Aix-en-Provence também.

Fazer compras assim além de gastar menos tem outra utilidade fundamental: reaproveitar, recuperar coisas e não consumir mais e mais. Assim ajudamos ao desenvolvimento ambiental. E se encontra de tudo: roupas, calçados, bolsas, acessórios, utensílios para casa, objetos de decoração, é um paraíso para quem gosta de coisas retrôs como eu, tem caixas, quadros, propagandas antigas…

Como boa brasileira, até que sou bem consumista (comparada com minha irmã até que nem tanto) e enfim, que mulher não gosta de fazer compras? E além do mais adoro como as europeias se vestem e a maioria desse tipo de moda não se encontra no Brasil. Por exemplo, aqui se encontra calça sknny, boca larga, corte reto… Minhas calças são todas justas no tornozelo, porque nos últimos anos essa era a moda no Brasil e não se encontra outra coisa e se você anda diferente te olham torto. Ando bem afim de uma calça com a boca mais larga que fica muito melhor com tênis e sapatilha, sem que o corpo pareça em formato de coração.  Saias mais compridas no Brasil é só para crente, aqui tem de todos os tamanhos e comprimentos. E sem falar nas tentações, lojas como H&M onde se encontra muita coisa barata, sites que vendem roupas de marca com descontos de 50 a 80%, os marchés de rua, que tem três vezes por semana nesta mesma praça que é como estar no Brás em São Paulo. Claro que a maioria das coisas é made in China, como uma saia que comprei a 1 euro. Mas também encontrei meias Dim, uma marca bem conhecida aqui e de qualidade, por 2 euros (nas lojas custam em torno de 6 euros).

Mas voltando ao vide grenier. Comecei olhando os objetos meio de longe, vasculhando as araras de roupas, dei uma procurada nos talheres pois estamos precisando e encontrei parecidos com os que vi no Emaús (uma associação que recupera móveis, roupas e objetos e vende a preços módicos). Eram talheres como os do rei, enormes, pesados, precisando de um polimento que não sei se funcionaria, então hesitei.

O casaco e a echarpe que comprei. Custo total: 1,50 euros

Passei por uma arara que tinha duas echarpes no meio de mais um monte de coisas. Como estou precisando de uma mais quentinha (só trouxe uma por falta de espaço na mala e as outras várias que trouxe são fininhas, de meia-estaçã0) perguntei quanto custava: “50 centimes” – 0,50 centavos de euro!  Bom com esse preço não tinha como não levar!!! Saí com ela enrolada na bolsa já que a outra estava no pescoço.

Foi então que aos poucos fui deixando as araras de roupas, pois em alguns estandes os preços estavam em torno de 2o euros – são brechós profissionais que expõem nesse tipo de feira – e comecei a fazer como todo mundo e vasculhar as roupas espalhadas pelo chão dos estandes também. Muitos já começavam a recolher os objetos para fechar, pena, pensei pois devo ter perdido muita coisa boa, mas nesta hora começam a torrar mais ainda os produtos. Num outro estande, numa rápida olhada numa pilha de roupas descobri um casaquinho tipo blazer de lã, tamanho 40. Resolvi experimentar, serviu! Olhei no espelho: Feito para mim. Quanto custa? 1 euro! Perfeito! Enquanto pegava a moeda, o companheiro da vendedora quis me vender o espelho também! Disse que não, mas ele insistiu, para mim colocar na parede, disse que já tinha um, pena, nem cheguei a ver quanto seria a pechincha.

Vestido de 10 euros da Coiffeur Vintage, Paris

Bom, chegando em casa resolvi olhar a etiqueta da peça. Não era chinês, marca Mexx, endereço de Madri, Espanha, made in Macedonia. Vou olhar na internet e descubro que um casaco dessa marca com material parecido custa 139,95 euros! Além de perder o preconceito com roupa usada, tô com bom olho também!

Não é a primeira vez que compro em brechó, a primeira vez foi em Paris. Encontrei uma loja de ocasião sem querer pelo Marais, na Rue des Rosiers, onde tem vários restaurantes de falafel – que se soubesse que ia parar por lá tinha trocado a baguete por um, que dizem são dos melhores. Fiquei quase louca na Coiffeur Vintage, tinha batas e camisas brancas por 3 euros! Não tinha muito espaço na mala e estava voltando para o Brasil já bem carregada, então comprei uma dessas com detalhes em broderie, adoro essa blusa e na etiqueta: made in France. Encontrei também esse vestido acima por 10 euros.

Casaquinho de 8 euros da Roba Amiga, Barcelona

Na viagem que fiz recentemente a Barcelona descobri a Roba Amiga ao lado do meu hostel. Comprei uma saia jeans por 3 euros, uma blusa por 6 euros (que me lembra um pouco a moda de Desigual, mas como lá uma blusinha custa em torno de 80 euros…) e esse casaquinho bem colorido, (ao lado) a cara da Espanha por 8 euros. Em Londres como não tinha o hábito não explorei brechós e tem muitos também. Em Marseille conheço só uma loja perto da Cours Julien, de vez em quando dou uma garimpada e fiquei sabendo que tem uma outra perto dessa mesma praça do vide garnier. Tenho que ir dar uma conferida, afinal, não tem mulher que não fique feliz fazendo compras e pode acreditar que a felicidade é maior quando se gasta quase nada, afinal o prazer do shopping não vem acompanhado de consciência pesada e fatura de cartão de crédito. E sempre me pergunto: que história tem por trás daquela roupa e além do mais é uma peça única. No final, gastei 1,50 euros no vide granier. O preço da passagem (só de ida) do metrô para o evento que me fez sair de casa.

Coiffeur Vintage, Paris

Conheça um pouco da cooperativa Roba Amiga (vídeo em espanhol)

As bande dessinées (BD ou bédé) são uma paixão na França. Livros em quadrinhos ocupam boa parte das livrarias e da estante aqui de casa. É possível encontrar BDs sobre tudo: ficção, história, biografias e claro, as clássicas HQs de super-heróis, V de Vingança (V pour Vendetta), Mafalda e “Calvin et Hobbes”. A maioria são em edições de grande formato, com capa dura e papel de ótima qualidade, em cores. Há histórias em vários volumes, formando grandes coleções. Não é um passatempo de guri ou de adolescente mas literatura mesmo. Para mim é uma leitura mais fácil, embora claro, muitas vezes é cheio de expressões cotidianas que não estão no dicionário.

A minha paixão por bédés começou com Aya de Yopougon, de Marguerite Abouet & Clément Oubrerie (ilustrações). Li o primeiro volume na casa de uma amiga, numa noite que a conversa dos homens invadiu a madrugada.  É a história de Aya e suas vizinhas no bairro popular  de Abidjan, en Côte d’Ivoire, nos anos 70. Aya, muito séria, só pensa em estudar para se formar em medicina, enquanto suas amigas só querem sair e namorar no hotel de mil estrelas (um motel improvisado nas mesas da feira ao ar livre), uma delas fica grávida e muitas situações engraçadas são retradas. É um pouco adolescente, mas quem não tem histórias dessa época? A escritora é originária de lá e a gente conhece uma África cotidiana e vivante, longe de guerras e misérias. Vire e mexe tem referência às novelas brasileiras. Além de aprender francês, também aprendo algumas expressões africanas num pequeno glossário que há em cada volume . Tem até uma expressão para criticar os “brancos” que falam com o “rrr” puxado, os franceses no caso. Li até o volume 4, mas são 6 volumes até agora. Quem quiser conhecer, vi na Feira do Livro de Porto Alegre em 2010 que a LP&M publicou o primeiro volume em português.

Journal d’un journal, de Mathieu Sapin é um BD mais sério, mas sempre com humor, ainda mais que retrata o cotidiano de uma redação de jornal, neste caso, o Libération. Mídia de esquerda, Libé tem fama de ser “aberto” e a prova é este livro onde o desenhista teve acesso à todos os setores e reuniões, acompanhou jornalistas em reportagens e entrevistas durante seis ricos meses – ele estava lá durante o tsunami de Fukushima, a morte de Ben Laden e o caso DSK. É a visão de um leigo para quem é jornalista, mas a gente conhece bem o funcionamento do jornal e do site, como as editorias são divididas e essa ideia de liberdade e abertura. Uma vez por ano, por exemplo, escritores são convidados a fazer uma edição do jornal.  Um verdadeiro documentário do tradicional jornalismo francês!

E algo que pode parecer super normal me chamou atenção: os jornalistas vão de metrô para suas pautas. Claro! Em Paris ir de metrô é muito mais prático! Mas nunca tinha pensado nisso. Como no Brasil as empresas de comunicação tem carros com motoristas à disposição dos repórteres e fotógrafos, o que dá um certo status também, nunca imaginei que em grandes jornais da Europa os jornalistas saíam em transporte em comum. Mas aqui funciona e é bem melhor que carro… Já fiz muita reportagem de ônibus e metrô no pequeno jornal que fiz meu primeiro estágio, mas depois na RBS, claro, todo mundo ia de “carro da firma”.
OS BDs, a 9ª arte, também invadem a 7ª arte, o cinema (alguém sabe qual é a 8ª?). Um dos mais célebres é Persepolis, de Marjane Satrapi. Não li o livro ainda, mas vi o filme, biografia da escritora e desenhista no Irã dos anos 80, onde através da história de sua vida, a gente conhece o cotidiano de Teerã em preto e branco e como a revolução leva ao exílio e consequentemente a uma crise de identidade. O filme ganhou o prêmio do juri do Festival de Cannes em 2007. Da mesma escritora, Poulet aux Prunes, chegou ao cinema no início de novembro na França (veja o trailer). No site do IMDb o título aparece em português (Frango com Ameixas), talvez esteja em cartaz no Brasil. Li o livro antes de ir ver o filme. Doce, triste e engraçado é a história de um músico que tem seu instrumento quebrado por sua esposa, com quem vive um relacionamento conturbado. Sem sua paixão ele decide pôr fim à sua vida. Também se passa no Irã, mas aqui o que importa é uma história de amor que no cinema ganhou vida em uma alegoria sensível. O único ponto negativo é que o instrumento, um Tar, no filme é transformado em violino. Mas não tira o brilho da história.

O último BD que li também foi de Marjane: Broderies. Enquanto os maridos fazem a siesta, as mulheres de sua família se reúnem para o samovar, um chá onde elas podem “tricotar” à vontade. Mesmo sendo de uma cultura mais conservadora, elas falam abertamente sobre  homens, sexo, casamento… de como os ocidentais veem o sexo, de simpatias para pegar homem, de como uma mulher que não era mais virgem tentou enganar o marido e acabou cortando o pobre na noite de núpcias. Muito engraçado e não há mulher que não se identifique. De extra aprendi as palavras digamos, popular, para o órgão sexual masculino.

Para os homens há Pascal Brutal, A nova virilidade. O personagem é um cara fortão, de vida de excessos, mas que pensa de vez em quando. Rodeado de mulheres, ele também é bissexual (ops, mas isso não se pode dizer).

São centenas e centenas de BDs, o próximo da minha lista é a série Le Photographe. Através de desenhos de Guibert e Lemercier e fotos do fotógrafo Didier Lefèvre podemos acompanhar a jornada a de uma missão de Médicos sem Fronteira nas montanhas do Afeganistão durante a invasão russa. Vi o vídeo que acompanha o livro e são imagens fortes de crianças, homens e mulheres feridos pela guerra, as extremas dificuldades para embalar medicamentos e acomodar no lombo de mulas que muitas vezes caíam montanha abaixo com toda a carga valiosa em cenas chocantes. Mas se vê o trabalho recompensado no rosto de um adolescente que teve sua face estraçalhada por uma bomba e alguns meses após o atendimento que ele recebeu, mesmo precário, teve seu lindo rosto recuperado.

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