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Sempre tive a sensação que nasci na época errada. Houve um tempo em que eram os Beatles, depois a má época da profissão de jornalista (como descrevi nesse post), depois quando li Paris é uma Festa, de Hemingway, a sensação era de  época e lugar errado.

E então hoje finalmente assisti Minuit à Paris e lá eu me encontro com um personagem que tem essa mesma sensação! Não sei onde andei que jamais li a sinopse do filme. Estava na lista para ver há tempos pois sempre vejo os filmes atuais do Woody Allen. Não priorizei muito porque pensei que seria algo meio clichê, Paríííí, ah Paríííí, o lance da Carla Bruni. Depois saiu do cinema, depois tentei baixar e vários tinham problemas e finalmente consegui uma versão original em inglês com legendas em francês. Enfim, as horas passaram voando enquanto vi o filme e invejei muito o personagem Gil, como eu queria flanar na Paris de “cette époque là”.

Adoro a moda, os vestidos, as bandanas na cabeça, o brilho e o charme de uma época plena, onde tudo ainda era original, uma geração inteira que podia explorar a arte, a literatura, a música, sem a sensação do “já foi feito”, onde qualquer coisa ordinária se tornava arte, pois foram os primeiros a ter essa ideia. Uma época onde o idealismo e a paixão eram maiores que as coisas cotidianas da vida, mesmo que essas coisas fosse o essencial para sobreviver.

E em falando desta época, assunto para o próximo post é a bande dessinée Pablo, sobre Picasso antes de se tornar Picasso. Estou encantada com o livro e não vejo a hora de sair o próximo volume.

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Petanque e cena pastoril

Na Provença, o presépio tem bem mais que a cena do menino Jesus no estábulo cercado por Maria, José e os reis magos. A tradição é montar um presépio numa verdadeira cidadezinha provençal com as cenas do cotidiano,  como o pastor que desce a montanha com suas ovelhas, a plantação de legumes, a colheita de azeitonas, o jogo de pétanque (uma espécie de bocha)… Todo esse cenário é composto por santons, pequenas estátuas de argila feitas à mão nos diversos ateliers do sul da França. No fim do ano, as feiras de Natal reúnem diversos artesãos que vendem seus santons.

No início de fevereiro visitei um dos ateliers em Aix-en-Provence, Santons Fouque. O santonnier explicou o longo processo de confecção, o que explica também porque eles custam caro, nesse atelier, por exemplo, um peça de 2cm são 9 euros.

Menino Jesus em criaçãoPara fazer um menino Jesus, tout petit,como da foto ao lado, são dois dias trabalhando para fazer a criação. Para as expressões do rosto ele utiliza fotos de bebê da internet. Como o processo é lento, são feitos moldes para que ele possa construir cópias mais rapidamente. Mas dependendo do modelo, uma peça pode ter até 10 formas, como é o caso do “Le Coup de Mistral”, um campônes ao Mistral – o vento típico daqui, peça exclusiva de Fouque desde 1952. Para manter as peças com o mesmo material, elas são coladas com um creme de argila. Depois os santons são colocadas numa cava para secar: uma escultura pequena precisa de uma semana, uma grande até três meses. Nesse processo, como a água evapora, elas diminuem cerca de 10%.

Depois eles são colocados num forno que chega a mil graus, são 36h por atingir a temperatura e outras 36h para ele se resfriar. Após esse processo os santons são como tijolos, fortes e resistentes. Então eles passam ao processo de decoração ou pintura a óleo e mais três dias para secar.

Um trabalho manual impressionante que passa de geração para geração. Eles surgiram no século 18 e se tornaram popular no século 19. Assisti um documentário em que um artesão dizia que ele não se tornou artesão, ele nasceu assim e que ele utilizava seu pai e sua mãe como modelo para as peças e sua tia confeccionava as vestimentas para os santons com o tecido das roupas dos mesmos.

Para quem pretende visitar a Provence e ficou curioso, em Marseille tem uma loja próximo ao Vieux Port – ao lado de La Maison du Pastis (a bebida típica do sul da França). Em Aix-en-Provence existem diversos ateliers, a lista você pode conferir aqui. O Santos Fouque que visitei é de fácil acesso, é possível pegar a linha 3 de ônibus em frente ao Office de Tourisme e para na frente do atelier.

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Acabo de falar com meu amigo, o amigo com quem há 5 anos tive essa conversa aqui, uma conversa bouleversante. A parada séria: um transplante de rins. Ele já tinha a mãe como doadora, mas precisava ultrapassar um outro obstáculo: físico e também psicológico. E  no último dia 14 ele fez a cirurgia. E daqui do meu plano, que tomou um rumo completamente diferente e muito melhor, falo com ele e tudo está bem. Tudo virá para melhor para ele também, uma nova vida se abre depois de tantas etapas, hora de fazer novos planos, Fábio!

Final de janeiro recebemos nosso última cesta de legumes da Amap. O local onde buscávamos encerrou a distribuição pois após três anos o número de participantes diminuiu ao invés de aumentar, como era esperado. O sistema de Amap é uma ótima opção de compra de legumes bio, direto do produtor. Você pode pagar por cesta, mas normalmente é pago anualmente para adiantar o dinheiro da produção e a cada semana você busca a sua cesta de legumes em um ponto de distribuição perto de sua casa (eu buscava numa creche), evitando assim a emissão de carbono e poluição com possível deslocamento em carro.

Por cerca de 20 euros você tem direito aos legumes (às vezes frutas também) da estação, outro ponto importante na preservação ambiental. Na distribuição é marcado a quantidade que você pode pegar de cada legume, como por exemplo: 1 quilo de batata, 2 alfaces, 3 abobrinhas… e por aí vai. Uma cesta por semana é suficiente para uma família de quatro pessoas. É possível fazer meia-cesta, basta combinar com uma outra pessoa que será seu companheiro de “panier”.

O desafio é conhecer receitas para os legumes de cada estação. Como o último verão aqui foi o meu segundo verão francês já tirava de letra fazer ratatouille, beringela recheada, lasanha de beringela, molho de abobrinha, abobrinha recheada com carne moída e saladas, muitas saladas, com arroz, cereais ou somente combinação de legumes, normalmente com três variedades de tomates. E também fazer molho de tomate para guardar para o inverno, pois assim se respeita o ciclo de cada estação. Somos acostumados a comer de tudo o ano todo pois por questões de mercado muitas vezes os legumes são cultivados de forma não natural ou são importados (o que acarreta transportes poluentes). No Brasil acho que isso ocorre com menos frequencia, já que é um país tropical em que “se plantando, tudo dá”.

Enfim, mudança de estação e a cesta da Amap era uma verdadeira surpresa a cada semana. Legumes que existem no Brasil e eu nem sabia como traduzir o nome pois não o conhecia, como a acelga. Muitos legumes a base de raízes como nabo, beterraba, aipo e  rabanetes de várias espécies que se confundem com outros legumes e só experimentado para saber o que é. Muitos desses legumes eu jamais tinha comido, vai dizer, nabo é uma coisa que a gente faz cara de nojo antes mesmo de experimentar. Mas a surpresa não era só minha não, conversei com franceses que me disseram desconhecer diversos legumes e a solução: fazer uma sopa! Mas o que fazer com as duas peças de erva-doce que recebíamos toda semana? Sim, aqui é um legume!

E a propósito do último post, posso dizer que enfim estou habituada aos legumes de inverno. O cardápio essa semana por exemplo, não foi nada assim de muito elaborado, mas para quem não cozinhava… teve sopa de abóbora com cenoura, batata e creme fresco; quiche de espinafre com bacon; salada de repolho, cenoura e beterraba com nozes, cubos de queijo e croûtons de alho; acelga enrolada no presunto com molho bechamel e queijo; crepe com molho branco e espinafre. O crepe ou panqueca, foi a solução para terminar o leite que abri para fazer o bechamel. Aqui tem garrafinha de meio litro, mas mesmo assim fica estragando na geladeira. Já o molho branco para os espinafres foi para terminar o creme de leite aberto para fazer a  quiche e utilizei um pouco do creme fresco da Normandia que vai na sopa. E tudo sempre acompanhado de salada verde: alface e “mache” e queijo. Consegui bem equilibrar todos os ingredientes da cesta e os outros restantes na geladeira e fazer um cardápio elaborado – esse é o maior desafio, pois sem conhecer a gastronomia francesa e com os mesmos ingredientes, às vezes é difícil variar. Ser criativo também é difícil pois nem sempre sei que legume vai bem com o quê. Como a acelga com presunto, um improvisado, pois conhecia a receita com endívias.

E agora que não tem mais Amap, sábado é dia de feira. Mesmo com as temperaturas negativas lá fora, amanhã de manhã vou no “marché” onde os mesmos produtores comercializam seus produtos. A ideia é colocar no lugar das cestas um sistema de crédito. Podemos continuar pagando adiantado e cada semana eles descontam o que compramos na feira. No fim acho que será melhor pois podemos escolher os legumes e a quantidade e não vamos acumular batata, cebola e  ovos, que tinha toda semana em porções consideráveis e às vezes era difícil comer tudo, mesmo que eles durem um pouco mais.

Enfim, a dica que fica é que comer saudável e comer bem é fácil. Exige um pouco de esforço no começo, é verdade, ainda mais para quem não sabia cozinhar… E no Brasil é ainda mais fácil, pois a variedade de produtos frescos é muito maior e infinitamente mais barato. Com legumes saborosos reduzi o consumo de carne, melhor para a saúde e melhor para o meio ambiente, é nossos boizinhos do churrasco nosso de cada domingo e do bife de todo dia são grandes responsáveis por emissão de Co2. Adoro uma carne, mas não sinto mais tanta falta e quando como durante todo um fim de semana por exemplo, me sinto mal depois, pesada… O importante é sempre o equilíbrio. Como dizia uma professora de química que tive “tudo é veneno, nada é veneno, depende da quantidade”.

Amadurecer é cozinhar todos os dias com o que tem na geladeira sabendo dosar para que tudo dure toda a semana.

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