The black apple

Esta é a história de uma menina que queria usar óculos. Isso mesmo, ela queria usar óculos. Achava bonito, dava ares de inteligência. Mas ela enxergava bem, sentava no fundo da sala de aula e nunca teve problemas. Aos 14 anos, acompanhou sua avó em um exame no Banco de Olhos e ao colocar a mão sobre o olho direito, o esquerdo não deu conta de enxergar as letrinhas.

 

Procurou um oftalmologista e a decepção: teria que usar lentes! O grau do olho esquerdo era 10 vezes maior do que o outro e um óculos ficaria muito desproporcional. E por isso ela sempre enxergou bem, um só dava conta. Ao invés de escolher entre lindas armações, não teve escolha, tinha que usar uma lente rígída, pois não havia gelatinosa para seu problema. E a do olho mais problemático ainda precisava ser especial, mandada fazer fora. Foi essa a primeira vítima, quebrou na primeira semana.

Era difícil se adaptar, os olhos lacrimejavam e por conta disso não enxergava bem com as lentes. Certa vez na sala de aula, mesmo de óculos escuros, a claridade era insuportável. Chegou ao ponto de machucar o olho e ter que colocar pomada, isso mesmo, pomada no olho.

Foi então que desistiu das lentes. Consultou outros especialistas que lhe diziam que se não tinha conforto com elas, era melhor não usar.

Alguns anos passaram e a menina entrou na era da informática. Jornada de 9h em frente ao computador no trabalho e mais a faculdade e além da tendinite os olhos começaram a ficar cansados. Desta vez foi decidida ao oftalmo: queria um óculos para o olho bom! Aquele que ela enxergava melhor e que agora cansava. Que a outra lente fosse de vidro. A médica aceitou, afinal o aparelho que tinha sequer conseguiu alcançar o grau deficitário do olho esquerdo, de 5 de astigmatismo e 6 de hipermetropia, ou vice-versa. E também isso não importava, pois depois de consultar muitos oculistas, descobriu que a visão atrofiara tal músculo não trabalhado e se formava atrás da retina.

E assim a menina teve seu primeiro óculos, da marca plaiboy, com armação fina prateada. Esse foi perdido num assalto, aí veio um parecido de cor cobre mas com fio de nylon na parte de baixo. Depois veio um de armação mais grossa, marrom, para destacar bem que ela usava óculos. E nisso o grau de astigmatismo do olho que enxergava foi aumentando. Quando novamente resolveu trocar a armação grossa por uma fina de novo, mas agora quadrada, como o óculos marrom, fez uma revisão. Enrolou, enrolou e seis meses depois o grau havia aumentado, do 0,50 lá do início, chegara a 1,65. “Mas pelo menos nessa idade não irá mais desenvolver uma miopia”, disse o oftalmo para a menina que chegara aos 26 anos. No ano seguinte, volta no mesmo médico e ele morde a língua. Lá estava 0,5 de miopia somado ao outro grau.

Então ela resolveu abandonar o sonho de menina. Havia se tornado dependente demais do óculos. Antes dava para encarar uma festa sem eles ou praia de óculos escuros sem grau. Agora não, e se convenceu a usar lentes, pelo menos em ocasiões especiais e saídas. Após 13 anos algumas coisas evoluíram e já existe lente gelatinosa para ela. Dessa vez ela está determinada, ainda que insegura, então resolveu comprar um espelho de mesa com aumento e fazer tudo igual lhe ensinaram na ótica, longe do ralo da pia do banheiro. Mais o produto de limpeza e um estojinho com espelho e tubinhos para o líquido para quando estiver longe de casa e lá se foram R$ 73. Pensou ela: dava para trocar a lente do óculos de armação marrom e ter mais um a disposição… (pois se pudesse ela teria vários modelos para variar conforme a roupa).

Hoje foram minhas duas primeiras horas de adaptação com as lentes. Foi uma experiência melhor que da outra vez, mas não totalmente confortável ainda, e com desconforto eu não enxergo direito. Mas estou disposta não a abandonar o óculos, mas poder usar os de sol 🙂

Tudo que concluo é que os óculos nos fazem enxergar cada vez pior, embora minha vó acredite que eles sejam terapêuticos.

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