Desde que comecei a ler Quase Memória, do Carlos Heitor Cony eu quero colocar um post sobre ele, tal o fascínio que o livro exerceu sobre mim. Já terminei de ler, continuo fascinada e portanto, tenho que recomendar.

O obra foi lançada depois de Cony ficar 20 anos sem publicar um romance e este é um quase-romance. Cony recebe um pacote que reconhece ser de seu pai, dez anos após sua morte. Enquanto observa o embrulho ele recorda a grande figura que foi o jornalista Ernesto Cony Filho. Me apaixonei por este homem entusiasmado pela vida e cheio de técnicas mirabolantes. Uma pessoa simples que não se deixava abater pelas adversidades. Um grande pai, um grande jornalista, um grande homem. Não sei até que ponto tudo é real ou ficção, e claro que Cony por admirar seu pai pode estar exagerando, é a sua visão de filho coruja. Mas mesmo assim, queria ter um pai como este. O único fato que me incomodou foi ele ter traído sua esposa, mas isso meu pai também fez, então…

A minha vontade era ler cada vez mais o livro, mas ao mesmo tempo, não queria que ele terminasse. Foi assim quando li o romance de estréia deste mesmo autor, O Ventre, que também recomendo. Me iniciei em CHC com Romance sem Palavras, e foi o menos melhor dos que li dele até agora. Ainda bem que ainda tenho mais dois volumes novinhos do Cony me esperando em casa.

Mas conhecer este jornalista que atuou antes mesmo de existirem as máquinas de escrever, me faz pensar que nasci na época errada. Eu já tinha essa sensação em relação aos Beatles e a música dos anos 60 e 70. Agora em relação a minha profissão. Não querendo defender a não formação acadêmica, mas os grandes jornalistas nunca a tiveram. Saio da faculdade com a impressão de que fiz um curso técnico do Senai ou Senac (não menosprezando estas entidades), mas sinto que foi tempo perdido os anos que fiquei no banco universitário aprendendo como escrever sem pensar sobre o que estou escrevendo. Vendo no final do curso os colegas levarem um grupo de música para fazer uma entrevista na rádio e não saber que tipo de música a banda toca! São muito pouco os que trabalham na área e ninguém será um grande jornalista, até porque hoje, assim como o furo, são coisas que já não existe mais, para o bem ou para o mal. E tudo que sei um pouco a mais, que atino, foi porque sempre trabalhei na área e me considero jornalista desde os 19 anos, quando publiquei minhas primeiras matérias num jornal da cidade. Se Nelson Rodrigues começou com 15, eu também posso contar que já sou jornalista há 5 anos.

E engraçado que durante a leitura do livro, recebi uma carta registrada. Fiquei com a pulga atrás da orelha. Pensando no pacote que Cony recebera do pai e quem me mandava uma encomenda? Sendo que eu estou morando há três meses no novo endereço. Desconfiei ser a Gi, lá do Mato Grosso, não era. Dúvida até ir ao Correio. Era só o talão de cheques… O banco mudou o sistema. Eu sabia… mas não havia solicitado.

E a leitura do livro foi outro motivo que me fez repensar a questão de filhos: ter ou não ter. Quando escrevi este post sabia que tinha um outro motivo que não lembrava. Era a admiração. Foi o pensamento ligeiro que correu em minha mente que eu talvez pudesse ser tão admirada por um ser como Cony-pai o foi pelo seu filho. Não por egoísmo, não por vaidade, mas pela sinceridade do sentimento que um filho pode ter, embora muitas vezes reconhecido tardiamente. Mas isso não incomoda a pai e mãe, seu amor é sublime e como se diz, a gente só consegue entendê-lo quando tem os próprios rebentos.

Mas Ernesto Cony Filho me motiva. Como ele, de agora em diante, sempre vou dormir pensando: “Amanhã farei grandes coisas!” E tenho que acreditar nisso ao final do dia, pois assim, não me angustio tanto com essa urgência que eu tenho em viver.

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