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Petanque e cena pastoril

Na Provença, o presépio tem bem mais que a cena do menino Jesus no estábulo cercado por Maria, José e os reis magos. A tradição é montar um presépio numa verdadeira cidadezinha provençal com as cenas do cotidiano,  como o pastor que desce a montanha com suas ovelhas, a plantação de legumes, a colheita de azeitonas, o jogo de pétanque (uma espécie de bocha)… Todo esse cenário é composto por santons, pequenas estátuas de argila feitas à mão nos diversos ateliers do sul da França. No fim do ano, as feiras de Natal reúnem diversos artesãos que vendem seus santons.

No início de fevereiro visitei um dos ateliers em Aix-en-Provence, Santons Fouque. O santonnier explicou o longo processo de confecção, o que explica também porque eles custam caro, nesse atelier, por exemplo, um peça de 2cm são 9 euros.

Menino Jesus em criaçãoPara fazer um menino Jesus, tout petit,como da foto ao lado, são dois dias trabalhando para fazer a criação. Para as expressões do rosto ele utiliza fotos de bebê da internet. Como o processo é lento, são feitos moldes para que ele possa construir cópias mais rapidamente. Mas dependendo do modelo, uma peça pode ter até 10 formas, como é o caso do “Le Coup de Mistral”, um campônes ao Mistral – o vento típico daqui, peça exclusiva de Fouque desde 1952. Para manter as peças com o mesmo material, elas são coladas com um creme de argila. Depois os santons são colocadas numa cava para secar: uma escultura pequena precisa de uma semana, uma grande até três meses. Nesse processo, como a água evapora, elas diminuem cerca de 10%.

Depois eles são colocados num forno que chega a mil graus, são 36h por atingir a temperatura e outras 36h para ele se resfriar. Após esse processo os santons são como tijolos, fortes e resistentes. Então eles passam ao processo de decoração ou pintura a óleo e mais três dias para secar.

Um trabalho manual impressionante que passa de geração para geração. Eles surgiram no século 18 e se tornaram popular no século 19. Assisti um documentário em que um artesão dizia que ele não se tornou artesão, ele nasceu assim e que ele utilizava seu pai e sua mãe como modelo para as peças e sua tia confeccionava as vestimentas para os santons com o tecido das roupas dos mesmos.

Para quem pretende visitar a Provence e ficou curioso, em Marseille tem uma loja próximo ao Vieux Port – ao lado de La Maison du Pastis (a bebida típica do sul da França). Em Aix-en-Provence existem diversos ateliers, a lista você pode conferir aqui. O Santos Fouque que visitei é de fácil acesso, é possível pegar a linha 3 de ônibus em frente ao Office de Tourisme e para na frente do atelier.

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Finalmente conheci a Espanha! A quente e calorosa Barcelona me recebeu entre os dias 18 e 23 de outubro. Pela primeira vez viajei sem me programar muito. Só faço isso quando vou para algum lugar que tem alguém morando e vai me ciceronear pela cidade. Na viagem de sete horas de trem li as indicações resumidas do Guia Criativo para o viajante independente na Europa e mais umas olhadadelas no guia da Lonely Planet em francês que peguei emprestado na biblioteca pública de Marseille. Fiz um pequeno roteiro para cada dia com o essencial, sem encucar com aquela lojinha ou museu que o guia trata com a mesma importância de lugares principais e que no fim acaba só tirando tempo da sua viagem para procurar o tal lugar. Mas isso teve um preço, poderia ter dado uma esticadinha em Figueras para conhecer o Teatro-Museu Dalí. A viagem tinha escala nessa cidadezinha há duas horas de Barcelona. Como não fui eu quem comprei as passagens e não as vi até a hora de embarcar, acabei perdendo a oportunidade de adiar um pouco a ida ou o retorno para conhecer esse universo surrealista. Mas no fim, foi uma das viagens mais agradáveis que fiz, vi tudo o que eu queria com tempo de sobra e ainda descansei, alguns dias dormi até mais tarde ou fiz a siesta dos espanhóis.

Mas nunca imaginei que eu teria tantos problemas para me comunicar na Espanha (tá bom que eu já desconfiava nos últimos tempos) ! Para começar espanhol se parece muito com o português e sempre tive interesse pelo idioma. Já fiz cursos, tenho colegas sul americanos e entendo tudo que eles falam quando conversam entre si, mas simplesmente não saía nada da minha boca que não fosse francês. Eu até tentei, mas misturava tudo, tinha receio de dizer algo que fosse em português e não em espanhol e muitas vezes era a mesma palavra. Mas minha mente e meus “pensées” em uma língua que não a minha maternal já estão condicionados ao francês. Aí recorria a língua universal: o inglês, mas também não saía muito. Acho que se eu tivesse falado português teria simplificado tudo, mas enfim, eu queria hablar español, ou melhor castellano, já que em Barcelona a língua mesmo é o catalão. E o pior era entender, falar algumas palavras soltas e ouvir as pessoas irritadas porque eu não tinha explicado que ia tomar o café na padaria e não levá-lo, depois que ela já tinha colocado no copo de isopor. E ele que dizia enquanto eu falava com as pessoas: tu parle français, Fernanda!

Ficamos hospedados num hostel na Carrer Hospital, bem pertinho de Las Ramblas. É um hostel meio diferente. Na verdade é um apartamento com vários quartos, uma sala e cozinha. Na chegada tu telefonas, a pessoa vêm até o hostel, tu pagas ele te dá as chaves. Depois na hora de ir embora é só deixar a chave na porta. A vantagem é ficar em um quarto privado e ainda ter uma estrutura como “estar em casa”. No nosso caso o banheiro era coletivo, mas sempre limpo (uma pessoa vinha todos os dias para limpar), nunca teve fila para tomar banho e só não era silencioso porque era no centro, mas no apê era tranquilo. A desvantagem: no último dia um casal francês com uma criança pequena ficou no quarto ao lado, a partir das 5h da manhã essa criança começou a chorar como se estivesse sendo espancada e assim ficou por mais de uma hora, com certeza. Num hostel normal não aceitam crianças, eu acho, mas vire e mexe tem os festeiros para te acordar.

Port Vell

Chegamos no meio da tarde e ao descer na estação de metrô já dei de cara com o mercado de La Boqueria, há uma quadra do hostel. Logo o primeiro passeio foi Las Ramblas, de cabo a rabo, Plaça Catalunya de um lado, Monument à Colón do outro e Port Vell e o espetáculo do sol no fim da tarde. Depois de explorar os arredores, sem querer entramos na Carrer d’Avinyó, rua onde Picasso frequentou uma “maison close” e que talvez o tenha inspirado a criar “Les Demoiselles d’Avignon”, obra inaugural do cubismo. E assim descobrimos as pequenas ruelas do bairro gótico onde comemos tapas com sangria num charmosinho bar que dizia que tudo era “hecho com mucho amor”.

No dia seguinte uma passadinha em frente ao Palau Güell, primeira grande manifestação artística de Gaudí (10 euros para entrar). Depois fui ao Museu Picasso onde andei por mais dessas ruazinhas tranquilamente, olhando as lojinhas, até me deparar com a fila de espera de 40min para entrar no museu. Mas valeu a pena ver as maravilhas que ele pintava quando tinha apenas 17 anos. E todas as suas releituras de As Meninas, de Velázquez. Depois ali pertinho o Parc de la Ciutadella, com o Castell de Tres Dragors, uma fonte enorme (parecida com o Palais Longchamp aqui de Marseille) e o parlamento catalão. Do ladinho o Arc do Triomphe, bem diferente do de Paris e de Marseille. Depois caminhando ao redor me deparei com o Mercat de Santa Caterina, o atravessei e cheguei na Cathedrál, de arquitetura gótica, claro . Perto dali descobri uma loja só de leques! Um mais lindo que o outro, tinha uns de renda de 250 euros! Como não tive sucesso com as castanholas, acabei comprando um leque para mim. Segundo a vendedora, uma brasileira, as espanholas usam mesmo o leque contra o calor – o que constatei mais tarde numa danceteria. Continuei a marcha e cheguei a praça Sant Jaume, onde fica o Palau de Generalitat. Segui andando no que eu achava que era a direção do metrô e acabei nas Ramblas, na rua em face do hostel. Dei uma olhada nas lojas e voltando para uma pausa descobri ao ladinho um brechó. De cara já saquei uma saia de 3 euros, uma blusa de 7 e um casaquinho bem colorido, bem espanhol por 8 euros! Dava para passar e “gastar” muito mais tempo nesse brechó!

À noite hora da tradicional paella na tradicional Plaça Reial e mais sangria. Resolvemos dividir uma sobremesa para provar algo espanhol. Pedimos creme catalão e a surpresa: era o mesmo crème brûlée! Só um pouco mais amarelo… sem graça, já que é totalmente francês ça! Depois a programação é caminhar pelas ruazinhas para descobrir a noite, que depois da janta ainda é bem vazia…

Sagrada Família

Terceiro dia, hora de enfim conhecer as obras de Gaudí e que atraem todo mundo à Barcelona. Primeira parada: Sagrada Família. Parece aqueles castelinhos que a gente faz com areia molhada na praia. Sinceramente não é bonita, mas sim, é grandiosa. Fila enorme, onde já se conhece as façadas de cada lado, já que a espera vira quadra, mas até que andava rápido. Comprei a entrada com a casa Gaudí e sem os elevadores (que dá para pagar separado depois se você decidir subir, as escadas estão interditadas). Por dentro, ao estilo basílica, bem propícia à visitação da multidão que a invade todos os dias, cada lado uma decoração diferente. Tudo é muito diferente! O teto, as escadas, as colunas em cada etapa com formatos diferentes, surpreendente! Se tem acesso também à pequena escola de tijolo no formato de oca de índio projetada por Gaudí para os filhos dos trabalhadores, seu escritório, maquetes, máquinas que mostram como foram esculpidas as colunas e o túmulo do mestre que está na cripta e se vê por um vidro, do alto.

Teto da Sagrada Família

Depois Parc Güell, uma subida e tanto até chegar as escadas rolantes em plena rua que ajudam a subir até a colina onde fica mais uma obra maluca e tortuosa de Gaudí. É onde fica a casa onde ele morou nos últimos anos e que hoje é um museu, onde móveis projetados por ele estão conservados. Bom lugar para viver, eu diria. O parque é lindo, só não mais agradável porque óbvio, milhões de turistas, principalmente nos famosos bancos sinuosos com pedacinhos de azulejos, a marca de Gaudí. Depois a Manzana de la Discórida, com três casas famosas, a principal delas a Casa Batló, de Gaudí, com sacadas em forma de caveiras, a casa Amatler e a Casa Lleo Morera. A casa Batló é aberta à visitação pela bagatela de 18 euros! Acabei não entrando. Perto dali fica um de seus prédios famosos, La Pedrera, que acabei deixando para ir outro dia pois eu pretendia visitar por dentro. Voltando a pé e logo se está na Plaza Catalunya novamente.

Pausa no mercado de La Boqueria para comprar chorizo, presunto ibérico, queijo, vinho, azeitonas e pão para o “apéro”. Enfim, adaptamos as habitudes francesas. E também os itens para fazer café da manhã no hostel e encontrei adivinhem? Dulce de leche! E bom, se eu achava que a Argentina com suas media lunas e o tango já tinham pego muita coisa da França, em Barcelona tive certeza que também é cópia da Espanha com seus empanados e doce de leite. À noite, show de Flamenco. Queria muito mesmo ver e descobri no guia um lugar que a entrada era apenas 6 euros e tinha espetáculos a cada 1h – tem outras casas de show onde o ingresso varia de 30 a 50 euros. No fim, a sala Tarantos é um pega turista, o show dura 30 min e os outros 30 min são para encher a sala para o próximo espetáculo. Tem dançarina e a banda, mas quase uma amostra, que não é grátis. Andando pelas ruazinhas entramos num clube que tinha uma banda de jazz, bem boa. Mas chegamos cedo para os padrões espanhóis. Pelas 2h quando fomos embora é que o lugar tava começando a bombar.

Parc Güell - Gaudí

Dia seguinte Fundació Joan Miró no Parc Montjuic e mais uma fila, mas que foi a mais curta de todas e valeu muito a pena. Acho que não conheci muito da coleção permanente, mas a exposição L’Escala de la Evasió trazia uma cronologia completa do artista, desde seus primeiros quadros da fazenda da família até séries completas que consagraram o artista catalão. Segundo o site da Fundação, “mais de 50 obras de coleções públicas e privadas de todo o mundo”. Muita sorte. A visita deve ter durado umas boas 3h. Mas do lado de fora o tempo não estava colaborando muito. Uma volta num dos jardins do parque, meio a esmo, sem um lugar para comprar qualquer coisa para comer e com a chuva iminente, voltamos para o hostel e fizemos a siesta. Achei que o castelo de Montjuic não era assim tão interessante e pegar o bondinho em dia nublado também não, se alguém já foi pode me dizer o que perdi…

Bar Celta Pulperia

Acabamos saíndo para a noite barcelonesa à meia-noite. Finalmente entramos no ritmo! A essa hora tinha gente nas ruas, nos bares. Uma cerveja no rock e havy metal bar Tequila, cerveja na rua comprada dos indianos por um euro e uma parada por um policial por estarmos bebendo na rua. Acabamos saíndo das estreitas ruas e saboreávamos a cerveza pelas Ramblas quando o policial perguntou: “espanhol, inglês”? E em inglês ele disse que beber na rua dava multa. Perguntei se vender na rua dava também, afinal ninguém estava incomodando as dezenas de vendedores. Mas enfim, melhor não engrossar. Dissemos que íamos colocar no lixo, metemos no bolso, andamos mais um pouco e continuamos bebendo. Danceteria e aí me reencontrei com o jeito quente e latino. Pessoas dando show ao dançar salsa, gente calorosa e que me lembrou muito o jeito brasileiro, tão diferente na França… E a festa começa tarde, muito tarde mesmo.

Último dia, mais compras em La Boqueria para um piquenique e depois caminhamos até a Casa Milá, La Pedreira. Mais uma bizarrice de Gaudí. Acabei desistindo de entrar, 15 euros. Faz a conta quanto sai visitar todos os lugares de Gaudí?! Acho que a Sagrada Família foi a escolha acertada. Almoço-piquenique no Parc de Joan Miró, vista da Plaza de España e arredores de um shopping que tem logo ali à frente e seguimos pela avenida das fontes que dá no Museu de Arte Catalã, um belo prédio e tudo à volta magnifíco. Ao pôr-do-sol começa o espetáculo das fontes mágicas. Simplesmente sensacional! Efeito de luz e música na fonte principal e todo o prédio do museu tem cascatas de água que descem pelo parque que fica numa colina também. Lindo, lindo, lindo.

Para encerrar a noite, a semana, a viagem, tapas no balcão no Bar Celta Pulperia, com vinho branco servido no tradicional copo que é uma tigelinha, as mesmas estão coladas na parede atrás de cada banco para colocar o casaco. Comemos a tradicional tapas de polvo, e o bichão tá lá, para todo mundo ver. Também patatas bravas, lulas bebê e tortilla. Um último gostinho do melhor de Barcelona e da Espanha e uma das minhas melhores viagens.

Quase 4 anos depois que escrevi esse post aqui o ciclo se fechou. Cheguei a Poitiers na noite de 24 de agosto último, passei todo o dia 25 lá e voltei no dia seguinte pela manhã. O suficiente para conhecer essa cidade universitária que é muito calma, praticamente vazia no verão. No roteiro: igrejas, igrejas. O Museu de Belas Artes vale a pena somente pela sala de Camille Claudel (uh la la, se encontra de tudo na internet, alguém colocou aqui fotos de todas as obras, eu respeitei e não fotografei).

Como são lindas e delicadas suas esculturas! O carro-chefe é a obra La Valse (ao lado), onde um casal dança num delicado movimento do bronze esculpido. Mas a escultura L’abandon me impressionou um pouco, pois retrata a dor profunda dessa mulher abondonada por Rodin, seu grande amor e mestre que a levou à loucura, no sentido mais literal.

Mas os caminhos que me levaram a essa ville são totalmente diferentes do que eu planejei. Naquela época eu tinha um amigo que morava em Poitiers, jogava na liga de vôlei da cidade. Como eu queria realizar o sonho de conhecer a Europa, iria para Espanha estudar espanhol e depois obviamente conhecer Paris e dar uma esticadinha até Poitiers já que teria hospedagem gratuita. Acabei não juntando grana suficiente, deixando outros acontecimentos da vida adiarem esses planos e enfim, vim para a Europa pela primeira vez no ano passado num roteiro completamente diferente: Londres para aprender inglês, Holanda e Escócia de visita, Marseille na França para aprender francês e acabei conhecendo muitos outros cantos da França, tanto no Sul como na região de Charente. Estive perto de Poitiers, mas somente este ano fomos visitar son frère que lá habita. E foram por caminhos completamentes diferentes que o meu fabuloso destino me trouxe à França. Na época do post um comentário se eu estava pensando em morar na França. Não, na época a ideia era só visitar. E vejam só no que deu.

 

Ano passado eu fiquei três meses na França e não aprendi francês. Fiz um mês de curso intensivo numa pequena associação que tinha como objetivo nos colocar a falar a língua, que é a parte mais difícil do francês. Mas naquela época até entender era complicado para mim, quando estávamos entre amigos, aquela conversação toda parecia uma massa só de palavras, sem pausas, sem emendas e minha cabeça desligava ou eu ficava numa conversa paralela em inglês.

Aprendi o básico, mas insisti no inglês, até porque teve uma vez que fui comprar crédito para meu celular e tentei pedir em francês e ouvi: Do you speak english? (ninguém acredita quando conto essa história, já que os franceses tem fama de não gostarem de falar outra língua). Derrota total! Sem contar que todos os dias eu ia na boulangerie, pedia “une baguette” e lá vinha a pessoa com três! Como se une é bem dieferente de trois??! Acontece que pronunciar esse “u” com biquinho e tem o “u” sem biquinho, não é tão fácil quanto parece. Ah e claro que teve mais de uma vez que eu perguntei se a pessoa falava inglês, ela respondeu yes e depois continuou falando tudo em francês.

Resumindo, meu inglês que desenvolveu pouco em Londres em 3 meses morando com brasileiros, desenvolveu mesmo na França, onde eu acordava e dormia falando inglês. Que aliás, pode se tornar uma língua maldita quando você está em qualquer outro país tentando aprender outra língua, pois afinal, tem sempre algo a recorrer.

Ao voltar para o Brasil parece que então minha cabeça estava pronta para aprender français, não sei explicar como, mas comecei a fazer exercícios mentais pensando em francês (coisa que eu fazia quando comecei o inglês), assisti a todos os filmes em francês que tive acesso e quando o semestre começou, entrei num curso regular, com aula uma vez por semana, mas já no teste oral me saí bem, consegui entender tudo, tudo mesmo que a professora falou e consegui falar também. Fui para o segundo nível do básico porque tinha muitos tempos verbais para aprender além do presente, mas a professora sempre me incentivava a falar bastante na classe porque os outros colegas falavam pouco, já que não tinham tido uma experiência em países francofônicos.

Neste verão europeu, retornei a Marseille e parece mágica eu poder entender quando as pessoas se dirigem a mim, poder falar, mesmo ainda com dificuldade ou pronunciação incorreta, manter uma conversação com meus amigos (mesmo que eu não entenda 100% das palavras), falar ao telefone, ainda que um pouco nervosa. Mesmo até pedir um sorvete, uma informação na rua, ou melhor, até já dei informação na rua!

E recebi uma amiga brasileira aqui e entre franceses não conseguia mais falar muito em inglês, preferia falar em português com ela e traduzir para o francês, porque minha cabeça agora quando pensa numa outra língua escolhe primeiro o francês. Mas no começo não era bem assim, pois a primeira referência de língua estrangeira que eu tinha era o inglês e um dia na aula eu disse “Je can”! E o engraçado que após aprender uma segunda língua, não faço mais aquele exercício de pensar em português, traduzir e depois falar. Com o inglês era assim, depois ele saía direto. Com o francês já saiu fluindo. Já o espanhol, ah esse se foi. Não consigo mais articular nada além dum hola, que tal…

Sabe aquela cena do filme Amélie Poulain em que ela atravessa o ceguinho e vai narrando tudo que acontece ao redor? Quando ela o deixa ele está iluminado, como se pudesse enxergar. É assim que me sinto desta vez. Claro que não sou ingênua, como o cego que não voltou a ver, também sei que ainda tenho um longo caminho a percorrer. Aprender a gramática, pronunciar bem as palavras, desenvolver bem as frases, aumentar o vocabulário… Mas saí do Brasil no nível básico e cheguei aqui num nível já intermediário. E o melhor foi o “bravo” de meus amigos.

E revendo essa cena, outros detalhes que ficaram de fora no post Na França de Amélie: as provas de melão na feira, o poulet rôti (frango assado), as charcuterie, espécie de açougue que só vende produtos a base de carne de porco. Ainda preciso descobrir le Pierrot Gourmand.

*Ver, ouvir e falar

Depois de descobrir o azul safira – verde esmeralda do mediterrâneo, preciso conhecer os azuis, verdes e brancos da Patagônia!

Quando vejo as notícias do que está acontecendo no Egito eu me lembro de um colega egípcio que tive no curso de francês que fiz no último verão europeu. O único egípcio que conheci até hoje. Um garoto de olhos verdes esmeralda. Não sabia falar inglês e a timidez de adolescente no auge dos 17 anos o impedia de tentar se expressar em francês. Será que ele ainda está em Marseille? Ou voltou para o Egito e faz parte desses protestos? Ou foi ferido em alguma manifestação? Acredito que, provavelmente, sua ilegalidade na cidade francesa o tenha mantido longe dessa guerra.

Ele não foi à França atrás de democracia. Como todo jovem tem um sonho: quer ser médico e parecia ignorar todos os percalços que iria enfrentar. Todos sabemos que medicina é um curso difícil e ele ainda teria que vencer a barreira da língua. Sua imaturidade e talvez ele seja realmente tímido, o impediam de se agarrar aquelas aulas como o primeiro e grande passo para conquistar sua profissão. Era o mais quieto dos meus jovens colegas. Os garotos afegãos não conseguiam disfarçar o entusiamo de dividir uma sala de aula com três garotas de cultura mais aberta, incluindo uma brasileira. Para mim era curioso o marido que levava a colega marroquina, que usava véu, até a sala de aula todos os dias.

E nunca vou esquecer da primeira vez que estando lá fora, senti que o Brasil é um país maravilhoso. Toda vez que pediam para falar dos problemas do país eu relatava a insegurança que vivemos aqui e isso impressionava os estrangeiros. Naquele dia fiquei até com vergonha de ter relatado isso, já que no Afeganistão eles não tinham escolha: ou trabalhavam para os americanos ou para os Talebãs e em ambos os casos isso poderia ser uma sentença de morte. O garoto egípcio e o argelino não conseguiam expressar que tipo de problemas os levaram a deixar os seus países, se limitaram a dizer que era por causa de problemas. Mas podemos fazer ideia, uma vaga ideia, na verdade.

Garotos, na certa um antigo ideal ainda os motivava: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Só não contavam que Solidariedade é palavra riscada do vocabulário capitalista. Nesses países em conflito, por mais problemas que tenham, as pessoas ainda dividem um prato de comida. E ainda lutam por liberdade. Um direito que, em pleno século 21, ainda precisa ser conquistado com certas barbáries.

Tanto tempo sem entrar aqui que o wordpress até me pediu a senha. Então me senti na obrigação de fazer pelo menos um post do tipo “há quanto tempo não venho aqui”.

Passaram-se meus três meses em Londres, sendo que no último viajei quase todos os finais de semana. Fui para Oxford e Escócia. E depois, nos últimos dias antes de vir para a França, foram de uma correria só, mas de ótimos momentos. Eu fui para Liverpool numa sexta-feira e voltei no sábado bem tarde. No domingo bem cedo fui para Amsterdam e voltei na terça no final da tarde. Menos de 24h depois eu já estava rumo à Marseille, na França.

Tenho tantas coisas para escrever dessas viagens, tantas impressões… mas papel e fotos não traduzem tudo. Sim, descobri isso com os europeus. Eles têm razão. Mas aproveitei muito os momentos. E agora, nouveau vie! De um jeito que nem sei dizer se era o que eu esperava há muito tempo ou é tudo muito diferente. Só sinto que é do jeito que eu mereço. E não sei o que será do amanhã. Em fato, a gente nunca sabe, mas a gente sempre acha que pode controlar. Eu desisti. Estou indo na direção do vento e tenho encontrado boas surpresas. Dificuldades? Certamente haverá, mas já passei por tantas que tudo parece fácil.

Cheguei a conclusão que muitas pessoas vão para Londres quando não sabem o que fazer da sua vida. Eu era uma delas. Mudei de país. Mas ainda não sei se me encontrei ou me perdi de vez. Mas eu e uma das grandes amigas que fiz em Londres passamos a usar um motto: the life is just one!

E a minha é essa aí, sem caminho certo ou errado. Só caminho e quem vier comigo na mesma direção. Il est…

Eu comecei a escrever um post e antão me dei conta que eu deveria escrever esse primeiro para explicar um pouquinho. Na última segunda voltei de uma viagem de 12 dias pelo sul da França. Esse é um dos principais motivos do blog ter ficado tão abandonado. Mas foi de lá que atualizei o texto do meu perfil no blog. Além da idade estar ultrapassada, relembrei que tinha essa frase: “Quero e vou conhecer o mundo”. Bem, eu comecei…

Vi paisagens incríveis em lugares que precisei caminhar e subir montanhas até perder o folêgo. Quando eu avistava aquele azul esverdeado do Mediterrâneo eu precisava de ajuda para olhar, que nem naquela historinha do Galeano. E então eu descobri porque essa é a minha cor preferida.

Além de tanta beleza natural em Marseille, L’Estaque e  Cassis, curti o clima de cidades onde viveram Van Gogh e Cézanne, o luxo de Cannes em pleno Festival de Cinema e visitei cidadezinhas pequenas, de interior, que devem ficar de fora da maioria dos roteiros turísticos mas que me levaram ao real estilo de vida francês com apéros, almoços, jantares e churrascos entre amigos franceses… Não foi dessa vez que fui para Paris, porque daqui de Londres acaba sendo mais perto, mas vi tanta coisa linda que minha única ansiedade agora para conhecer a cidade luz é poder curtir um pouco mais os ares da França e suas comidas maravilhosas.

Marseille

L'Estaque

Cassis

Îles du Frioul

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Hoje faz 12 anos que a Princesa Diana morreu e um ano, sete meses e 14 dias que eu comecei a deixar esse sonho morrer. O
sonho de conhecer o lugar onde Amélie viveu seu fabuloso destino após descobrir uma caixa de lembranças no dia em que Diana
morreu em Paris.
No dia 17 de janeiro de 2008 uma promessa de quem sabe poder viver a cena final de Amélie Poulain ao invés de subir sozinha as
colinas de Montmartre me fez mudar aquele sonho. Eram palavras, como sempre são palavras, mas que eu dou um crédito a mais
do que traços que formam ideias. Foram meses até tudo se acertar e depois muitos outros de paciência, tolerância e amor.
Algumas felicidades e muitos, muitos outros sonhos. Confesso que coloquei esse desejo de ir à França, e agora não mais sozinha,
em segundo plano. Ele viria como consequência de outros que eu tinha na minha mente e no meu coração.
Esses sonhos começavam com o trivial. Mas quando o trivial já é um sonho, alcançar os demais parecia impossível e angustiante.
E até que chegou a um ponto que fiquei impotente. Não havia mais nada que eu pudesse fazer para alcançar meus próprios
sonhos. Que sensação sufocante é a impotência diante de seus próprios desejos e obstinações. E mais, no meu exército estava
um homem só. Eu acreditava que pelo menos iríamos juntos até o fim da batalha. Para mim esse ponto era pacífico, sequer seria
discutido. Amor e lealdade andam juntos e não nos fazem desistir simplesmente. Eu não contava que podia haver um desertor. E
houve. E no final das contas eu já estava tão cansada de só sonhar que toda aquela fantasia agora me parecia como os dias finais
de uma guerra em que se sai derrotado: exaustivo, frustrante e com um desejo enorme de voltar para casa.
E eu ainda não consegui voltar.

Hoje faz 12 anos que a Princesa Diana morreu e um ano, sete meses e 14 dias que eu comecei a deixar esse sonho morrer. O sonho de conhecer o lugar onde Amélie viveu seu fabuloso destino após descobrir uma caixa de lembranças no dia em que Diana morreu em Paris.

No dia 17 de janeiro de 2008 uma promessa de quem sabe poder viver a cena final de Amélie Poulain, ao invés de subir sozinha as colinas de Montmartre, me fez mudar aquele sonho. Eram palavras, como sempre são palavras, mas que eu dou um crédito a mais do que traços que formam ideias. Foram meses até tudo se acertar e depois muitos outros de paciência, tolerância e amor.

Algumas felicidades e muitos, muitos outros sonhos. Confesso que coloquei esse desejo de ir à França, e agora não mais sozinha, em segundo plano. Ele viria como consequência de outros que eu tinha na minha mente e no meu coração.

Esses sonhos começavam com o trivial. Mas quando o trivial já é um sonho, alcançar os demais parecia impossível e angustiante. E até que chegou a um ponto que fiquei impotente. Não havia mais nada que eu pudesse fazer para alcançar meus próprios sonhos. Que sensação sufocante é a impotência diante de seus próprios desejos e obstinações. E mais, no meu exército estava um homem só. Eu acreditava que pelo menos iríamos juntos até o fim da batalha. Para mim esse ponto era pacífico, sequer seria discutido. Amor e lealdade andam juntos e não nos fazem desistir simplesmente. Eu não contava que podia haver um desertor. E houve. E no final das contas eu já estava tão cansada de só sonhar que toda aquela fantasia agora me parecia como os dias finais de uma guerra em que se sai derrotado: exaustivo, frustrante e com um desejo enorme de voltar para casa.

E eu ainda não consegui voltar.

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Ficar lendo as mensagens e interlocuções entre outras pessoas, provavelmente também solitárias, no Chat TV*.

*Chat TV é o canal 37 da Net analógica. Ali passa a programação e mensagens em torpedos que o pessoal manda a R$ 0,31 mais impostos.

Outros cúmulos da solidão:

Mais uma ida ao aeroporto em que ele foi e ela ficou…

Centro Cultural Islâmico Rey Fahd

Ninguém se arriscou a um chute para dizer onde eu estava neste post aqui.

Enfim, uma das coisas que me encanta na capital portenha é sentir-se em diversos lugares do mundo em uma única cidade.

E assim, tive a oportunidade de conhecer o Centro Cultural Islâmico Rey Fahd, ou a mesquita de Palermo, como é conhecida também. Não é a mesquita azul de Istambul, mas é bem imponente. Era perto do local onde estava hospedada. Fui a pé até lá, tirei várias fotos do lado de fora e confirmei que a visita guiada seria naquele dia, ao meio-dia, e só fiquei na dúvida se minha capri seria considerada roupa comportada. Para matar o tempo fui dar uma volta no Jumbo Palermo, o shopping de ferragens e artigos para casa, mas errei a entrada e parei no súper e o livro que eu carregava (A Sombra do Vento, que tinha aquela coisa de segurança da livraria Cultura) mais uma vez apitou na máquina (aconteceu também na El Ateneo) e desisti de olhar a loja. Fui então para o rosedal no Parque Tres de Febrero esperar o tempo passar lendo na margem do laguinho.

Quando voltei, uma fila já se formava para a visita na porta do templo. Assim permanecemos, depois de nos identificarmos com uso de documentos, até que uma pessoa veio nos dar instruções severas de como andar por dentro do centro. Em nenhum momento poderíamos nos separar do grupo, mesmo que algo nos chamasse atenção. Será que eles tem medo que alguém se separe para colocar uma bomba no prédio? Bom, tem muito radical do lado deles… enfim, melhor seguir as regras. Fotos, só quando eles dissessem que era o momento.

Entramos e fomos para um pequeno auditório onde nas cadeiras nos esperavam um guia ilustrado do islã, um livro sobre “Muhammad” e folders da programação e preceitos (um dia vou ler esse material…). Bem, a pequena explanação sobre a religião estava me fascinando, já que é uma religião aberta a todas as pessoas, sem preconceitos… não é a toa que é a que mais cresce no mundo. Vimos fotos de Meca e da Medida e aprendemos os cinco pilares do islamismo. Descobri que Jesus é considerado um de seus profetas também.

Depois, hora de tirar os sapatos e entrar na mesquita! Estivemos somente na ala dos homens, que era o salão principal. Decoração simples, quase inexistente, para não tirar a atenção das orações. Só tapetes persas com os espaços demarcados para as orações e um grande lustre na cúpula, que tem esse formato único e exclusivo para facilitar a iluminação.

Eu na minha total ignorância sobre a religião, achava que não poderia adentrar no espaço dedicado aos homens, a parte das mulheres ficava em cima, num outro ambiente. Aí descobri que essa separação existe única e exclusivamente para não tirar a atenção das orações. Como é preciso fazer vários movimentos corporais, os homens poderiam ficar olhando para o bumbum das mulheres, nas minhas palavras.

Depois disso não teve mais muita coisa interessante, avistamos a biblioteca, um salão e a escola que tem dentro do centro. Perguntei como a religião poderia ser aberta se as orações são feitas em árabe e tem que ler o Alcorão… simples: decorando as falas com livros de fonética para a sua língua. De qualquer forma, minha empolgação com a religião não durou até o fim da visita, afinal, dá muito trabalho ter que aprender árabe e fazer cinco orações por dia.

Mas o local é lindo, vale a pena a visita e faz a gente se sentir no Oriente.

Buenos Aires capítulos a parte

Melissas são de plásticos, certo? Mas tive que descalçar a minha para passar no detector de metais do aeroporto de Garulhos a (des) caminho de Buenos Aires.

E foi de pés no chão que adentrei a sala de embarque, em frente à Polícia Federal.

A viagem estava só começando…

… e não foi a única ocasião que fiquei de pies descalzos.

Alguém adivinha onde eu estou aí embaixo?

De pies descalzos y de sueños blancos

Aguardem cenas dos novos capítulos a parte de Buenos Aires

Eu nem abri o livro da Mafalda que eu comprei na última viagem a Buenos Aires. Não li nenhum dos livros de arte que comprei na Corrientes e nem um outro que comprei na Ateneo. Ainda não terminei de ler o catálago do Malba. Não escutei todo um CD de Tango que ganhei no city tour e nem meu hidratante de Victoria’s Secrets comprado no free shop terminou. Um chaveirinho que comprei de lembrança só encontrou destino agora para fechar a minha mala para uma nova viagem que nem achei que fosse fazer um ano e quatro meses depois que conheci mi Buenos Aires querida.

Foi tudo de repente, de férias para aproveitar o feriadão (que acabou não sendo como eu planejava) resolvi bisbilhotar e encontrei passagem e estadia muito em conta, então resolvi aproveitar. Cheguei na capital portenha domingo, lá ainda era feriado na segunda, e aproveitei muito esses quatro dias para ver coisas que não vi da outra vez, para curtir e rever lugares que me gustan mucho. E novamente não vi e nem revi tudo. Mas ter ido sozinha foi uma experiência interessante e enriquecedora. Embora díficil às vezes. Mas tudo ocorreu dentro do previsto, surpresas… só as agradáveis! Me perdi pelas ruas portenhas e não teve nenhum encontro comigo mesma. Eu sei o que sou, algumas coisas que quero e no mais eram férias! Curti muito pelos cafés, parques e restaurantes com meu companheiro A sombra do vento. Aprendi a fazer mais uma coisa sozinha…

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Eu e a Puente de la mujer, em Puerto
Madero, é difícil perceber, mas o arquiteto
espanhol Santiago Calatrava se inspirou
em um casal dançando tango (a parte
sinuosa representa a silhueta feminina)

Vou ali em Buenos Aires e já volto.

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Sentada no meio da rua, na Corrientes!
(estava fechada para um comercial)

Falei brincando esses tempos que ia vender havaianas em Paris para financiar a viagem por lá. Afinal, meu pai e minha irmã são do ramo do calçado, já teria o produto, só pegar com o fornecedor deles. E aí descubro essa comunidade no orkut: Vou a Paris vender havaianas. Já tô dentro! 

Será que eu seria presa se vendesse? Não precisava ficar pela rua vendendo, mas mostrando de cantinho no metrô, para um conhecido aqui e ali… não seria má idéia!

Hoje faz um ano que fui para Buenos Aires. Este post estava escrito e guardado. Acho que é um bom dia para encerrar os capítulos a parte de Buenos Aires. Logo virão capítulos de outros lugares do mundo. O projeto segue em andamento. Mais um passo.

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Uma das minhas grandes expectativas em ir a Buenos Aires era para ver “o homem que come”.

Não se assustem, estou falando de Abaporu, uma das obras mais conhecidas da artista brasileira Tarsila do Amaral, que está no Malba – Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires. O nome do quadro, que em tupi-guarani significa homem que come, foi um presente de Tarsila para seu marido Oswald de Andrade, que o batizou.

Logo que entrei na sala da coleção permanente já dei de cara com a obra, mas duas pessoas estavam paradas na frente. Para não ver “metade” da pintura, desviei o olhar correndo para um Rivera que estava a minha esquerda.

Quando os intrusos saíram pude contemplar toda a beleza e a grandiosidade de Abaporu. Fiquei muito tempo na frente dele. Daí fui perguntar para a monitora se eu podia “sacar una foto”, sem flash, só para recordação (como eu tinha feito no outro museu). Mas fui terminantemente proibida. Olhei mais um pouco e segui pela exposição, controlando a ansiedade de olhar logo para outra obra máxima do Malba, o quadro Autoretrato  con chango y loro (em espanhlo) de Frida Kahlo.

Quando estava perto de chegar nesse, vi um grupinho de turistas tirando uma máquina fotográfica da bolsa. Sinalizei que era proibido e alertei a monitora. Ah, se eu não poderia tirar uma foto, ninguém poderia! E sabe-se lá se ao menos teriam o cuidado de tirar o flash.

Flutuei por toda a exposição, maravilhada. Interagi com as obras cinéticas, inclusive uma do artista brasileiro Abraham Palatnik. Vi muitas obras de brasileiros que já tinha estudado, conheci um pouco mais da arte latinoamericana de períodos que adoro. Acho que olhei tudo umas três vezes e depois dei uma olhada rápida nas exposições que estavam por lá na época. Dos brasileiros tem Di Cavalcanti, Portinari, Hélio Oiticica, Lygia Clark (trepante e bichos!), Nelson Leirner, Antônio Dias e Mira Schendel.

A exposição é muito bem organizada, por perídos, desde o moderno ao concretismo e obras mais contemporâneas. Por lá, a visita é mais tranqüila, afinal é preciso pagar 12 pesos. Plata que não gastei, pois consegui entrada livre com minha carteira de jornalista. Mas teria sido um dinheiro bem empregado. A parte de trás da fachada é toda envidraçada, então quando se entra e sobe-se as escadas rolantes até o andar das obras há uma luminosidade incrível.

Depois, a obrigatória visita a lojinha do Museu. Tem produtos bem diferenciados feito por artistas e numa outra parte muitos livros. Me contentei com uma caneta, dois postais (um de Abaporu e outro do Metaesquema de Helio Oiticica) e o catálago do Malba, que é bem carinho, 65 pesos, mas vale muito a pena. Tem duas páginas para cada obra, uma com explicação e outra com reprodução, que dá para ver bem os quadros e esculturas, além de biografias e linha do tempo da arte latinoamericana (um ano e ainda não terminei de ler, mas não me canso de olhar para ele).

E aí está: Abaporu, Tarsila do Amaral, óleo sobre tela, 1928
A obra é importante porque marca o início do movimento antropofágico, manifestação artista da década de 20. E ah! Tarsila não participou da Semana de Arte Moderna. Vi a própria falando, em um vídeo, claro.

abaporu.jpg

Buenos Aires – Capítulos a parte VI
Buenos Aires – Capítulos a parte V
Buenos Aires – Capítulos a parte IV
Buenos Aires – Capítulos a parte III
Buenos Aires – Capítulos a parte II
Buenos Aires – Capítulos a parte I
Surpresa da viagem

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Vou guardar a data de hoje. O dia em que fez 10 anos da morte da Princesa Diana. Há 10 anos atrás, Amélie Poulain ao ver essa notícia deixou cair a tampa do seu vidro de perfume, descobriu uma caixinha de brinquedos de um antigo morador de seu apartamento em Montmartre e decidiu que se Dominique Bretodeau se emocionasse quando encontrasse suas reminiscências ela iria se imiscuir na vida das pessoas e a vida lhe retribui com o seu Nino.

Há alguns dias atrás eu estava desiludida com esse fabuloso destino. Será que o Nino soube retribuir e valorizar o amor da Amélie? Mas resolvi virar o jogo e pensar nos sonhos que escolhi para mim. Até agora fiquei dormindo, esperando o príncipe vir me acordar e ir viver comigo meus planos. Mas não tem cavalo branco, nem olhos azuis e os cabelos da cor do trigal. E a vida não nos dá a chance de dormir cem anos para esquecer…

Hoje marca o dia em que comecei a traçar um sonho. Levaram meu anão de jardim e então me dei conta! É só o rascunho do plano de conhecer o lugar onde Amélie viveu seu fabuloso destino e Diana encontrou o fim da sua vida de princesa, tudo porque deixou um sapo atravessar seu caminho.

Terei um recanto em Poitiers, às margens do Rio Clain, e é bom aproveitar a oportunidade. E aí os planos começam a se agigantar. O segredo é não ficar esperando para o dia em que der para fazer tudo, mas começar a pôr em prática. Vou começar recortando, colando, montando esse sonho até ver o traço ganhar contornos de realidade.

Mãos à obra!

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Em pensar que estive nesse show. Saudade… muita saudade. Dessas de apertar o peito até faltar o ar.

Essa história da viagem eu não tinha contado aqui no blog ainda. Saiu no Caderno Viagem da Zero Hora, no dia 12 de junho.

Buenos Aires – Capítulos a parte V
Buenos Aires – Capítulos a parte IV
Buenos Aires – Capítulos a parte III
Buenos Aires – Capítulos a parte II
Buenos Aires – Capítulos a parte I
Surpresa da viagem

dscn2767.JPGEu tinha grande expectativa em conhecer a livraria El Ateneo Grand Splendid. Instalada dentro de um antigo teatro, tem no palco um café e alguns camarotes com poltronas onde se pode sentar e ler à vontade. Em volta disso tudo, livros, livros e mais livros. Esplêndida mesmo.

Veja o interior da El Ateneo

Aí é que se vê o nível cultural de Buenos Aires, pois esse antigo teatro é bem peracido com o nosso São Pedro. E o teatro deles, o Cólon é maravilhoso. Fiquei boquiaberta quando fiz a visita guiada. Apesar de não ser free para jornalista, vale a pena gastar 12 pesos para conhecê-lo. É o teatro lírico mais importante da América Latina e um dos cinco mais famosos do mundo por sua acústica. Devido ao seu centenário estava fechado para reformas, mas eu gostaria muito de um dia poder voltar lá numa noite de ópera. Em 2008 ele reabre com Aída, de Giuseppe Verdi, a mesma da inauguração em 1908.

Mas voltando à livraria e porque foi um capítulo a parte. Inicialmente pensei que só daria uma olhadela, afinal os livros são todos em espanhol, embora quisesse adquirir Toda Mafalda. Mas ao chegar na seção de Diseño enlouqueci. Muitos livros sobre desing gráfico, diagramação e comunicação visual. Coisa que aqui não se encontra. Separei logo uns cinco. Aí vou ver os preços: decepção. A maioria custava entre 100 e 200 pesos. Fiquei com o único dentro do meu orçamento que custava 38 pesos: El diseño de comunicación, Jorge Frascara. Mas levei também a Mafalda, que é um clássico. Só ficou faltando tomar o café no palco!

Buenos Aires – Capítulos a parte IV
Buenos Aires – Capítulos a parte III
Buenos Aires – Capítulos a parte II
Buenos Aires – Capítulos a parte I
Surpresa da viagem

“Viajar é fatal para preconceitos, para o fanatismo e para as mentes estreitas. Daqui a 20 anos, você tenderá a ficar mais decepcionado com as coisas que deixou de fazer do que com as coisas que fez. Portanto, lance fora as amarras. Navegue para longe do porto seguro. Deixe que o vento sopre suas velas. Explore. Sonhe. Descubra.”

Mark Twain no livro The Innocents Abroad

Viajar tornou-se meu sonho de consumo nº 1. Depois da ida a Buenos Aires, cada vez quero descobrir mais e mais lugares. Perto ou longe, no Brasil ou fora, tenho uma imensa vontade de fazer diversos roteiros e ter pelo menos uns cem lugares para conhecer antes de morrer, já que mil acho que só vou conhecer pelo livro mesmo.

 Agora minha turma de História da Arte está programando três viagens voltadas para o assunto: Belo Horizonte (conhecendo o barroco mineiro, Portinari na Pampulha, atelier do Amilcar de Castro, o Caci, que fica num dos jardins de Burle Marx, entre outros), Rio de Janeiro (visitando o MAC, atelier de artistas, entre outras coisas, não me interessei muito por este) e a Bienal de Veneza e Alemanha.

Me interessei pela primeira e com a última nem cheguei a sonhar. E não poderei ir em nenhuma.

Bom seria poder ir nessa viagem e depois ir à Europa só para conhecer os lugares. Assim como gostaria de fazer uma viagem a Paris e depois outra só para ver o Louvre e outros museus importantes. Ou poder ficar tempo suficiente para explorar todas as suas galerias e de preferência numa visita orientada como fez a minha professora que voltou mais angustiada porque em 15 dias não viu tudo.

Gostaria de ver as tulipas na Holanda, caminhar de mãos dadas pela Champs-Elysées, andar de lambreta na carona do meu Nino pelas ruas de Mont Martre, que nem a Amélie Poulain. Cair na noite de Madri. Me banhar nas praias de Havana sob o domínio do barbudo Fidel. Percorrer a América Latina numa motocicleta. Fazer as estações de Cristo em Israel e tentar mergulhar no Mar Morto.

Isso só para citar roteiros dos mais conhecidos, porque quantos cantinhos escondidos devem haver nesse mundo esperando a gente vivê-los?

Desembarque no aeroporto Ezeiza, após os trâmites burocráticos, mesmo para o brasileiros (apesar de uma placa informar que cidadãos de outros países do Mercosul não precisavam passar pela imigração) caímos direto no Free Shop.

Eu fui olhar os perfumes e o námor os eletrônicos. Acostumado a viajar sozinho pelo mundo, quando ele me vê, tem aquela sensação: “uma pessoa conhecida por aqui!”.

Depois que ele me confessou isso, passei a viagem toda cuidando para ele não me esquecer em algum lugar.

Buenos Aires – Capítulos a parte III
Buenos Aires – Capítulos a parte II
Buenos Aires – Capítulos a parte I
Surpresa da viagem

O Beijo, Auguste RodinFaz tempo que prometi dar continuidade aos capítulos a parte da minha viagem a Buenos Aires, em novembro. Mas queria colocar com fotos e como ainda estou com internet discada vai sair aos poucos, mas sai!

Um dos lugares imperdíveis na capital argentina é o Museu Nacional de Belas Artes, na Recoleta. Na coleção permanente há um grande acervo de artistas famosos, coisa rara de se ver para uma moradora do Rio Grande do Sul como eu que nunca foi a São Paulo…

Como estudante de arte, me empolguei e cheguei tão próximo de algumas obras que mais de uma vez tocou o sinal sonoro “por favor”, pedindo para se afastar.

Deu para ver  Cézanne, Chagall, Coubert, Degas, Delacroix, Gauguin, Léger, Manet, Miró, Monet, Pissarro, Renoir, Diogo Rivera, Rodin, Henri Rousseau, Van Gogh, Kandinsky e Paulo Klee, que fiz reverências quando vi. Apesar de ter me decepcionada um pouco com o péssimo acabamento, mas sei que os artistas abstrados e formais do neoplasticismo se preocupavam mais com a forma e as cores da composição e não com a pintura em si.

Isso só para citar os que mais conheço, tem muito mais e no site dá para ver todas as obras. Mas como sempre diz minha professora, não se compara em ver ao vivo. Algumas até arrisquei a dizer de quem era antes de ler a plaquinha, e acertei!

A foto acima eu tire de O Beijo, de Rodin. Dei uma de turista babaca e posei ao lado da escultura também. Azar! Na época ainda não tinha estudado esse artista, só então depois é que me apaixonei pelas suas esculturas com movimentos e formas sensuais. Além do charme do seus blocos inacabados, sua marca registrada e que dá o tom moderno de sua obra.

O único ponto negativo da visita, é que como é gratuito, tinha muitos turistas e crianças fazendo algazarra lá dentro. Fica difícil ver algumas obras e se concentrar. O catálago do museu é baratinho, 20 pesos, mas não vale muito a pena. A maioria das fotos das obras são pequenas, parece mais um folder.

Veja outros:
Buenos Aires – Capítulos a parte II
Buenos Aires – Capítulos a parte I
Surpresa da viagem

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