Quando vejo as notícias do que está acontecendo no Egito eu me lembro de um colega egípcio que tive no curso de francês que fiz no último verão europeu. O único egípcio que conheci até hoje. Um garoto de olhos verdes esmeralda. Não sabia falar inglês e a timidez de adolescente no auge dos 17 anos o impedia de tentar se expressar em francês. Será que ele ainda está em Marseille? Ou voltou para o Egito e faz parte desses protestos? Ou foi ferido em alguma manifestação? Acredito que, provavelmente, sua ilegalidade na cidade francesa o tenha mantido longe dessa guerra.

Ele não foi à França atrás de democracia. Como todo jovem tem um sonho: quer ser médico e parecia ignorar todos os percalços que iria enfrentar. Todos sabemos que medicina é um curso difícil e ele ainda teria que vencer a barreira da língua. Sua imaturidade e talvez ele seja realmente tímido, o impediam de se agarrar aquelas aulas como o primeiro e grande passo para conquistar sua profissão. Era o mais quieto dos meus jovens colegas. Os garotos afegãos não conseguiam disfarçar o entusiamo de dividir uma sala de aula com três garotas de cultura mais aberta, incluindo uma brasileira. Para mim era curioso o marido que levava a colega marroquina, que usava véu, até a sala de aula todos os dias.

E nunca vou esquecer da primeira vez que estando lá fora, senti que o Brasil é um país maravilhoso. Toda vez que pediam para falar dos problemas do país eu relatava a insegurança que vivemos aqui e isso impressionava os estrangeiros. Naquele dia fiquei até com vergonha de ter relatado isso, já que no Afeganistão eles não tinham escolha: ou trabalhavam para os americanos ou para os Talebãs e em ambos os casos isso poderia ser uma sentença de morte. O garoto egípcio e o argelino não conseguiam expressar que tipo de problemas os levaram a deixar os seus países, se limitaram a dizer que era por causa de problemas. Mas podemos fazer ideia, uma vaga ideia, na verdade.

Garotos, na certa um antigo ideal ainda os motivava: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Só não contavam que Solidariedade é palavra riscada do vocabulário capitalista. Nesses países em conflito, por mais problemas que tenham, as pessoas ainda dividem um prato de comida. E ainda lutam por liberdade. Um direito que, em pleno século 21, ainda precisa ser conquistado com certas barbáries.