Foi quando assisti Minha vida sem mim com uma garrafa de vinho e me desmanchei em lágrimas que o psicólogo me disse que não deveria assistir essas coisas tristes, não naquela época, e que eu deveria ver filmes como Pãos e Tulipas.

Pois na sexta lembrei dele na locadora e este filme italiano de Silvio Soldini foi uma agradabilíssima surpresa.

De férias em excursão com a família, Rosalba é esquecida numa lanchonete da estrada. O ônibus parte sem ela e o marido e os filhos não se dão conta. Ao pegar uma carona para voltar para casa e aproveitar para ficar sozinha, coisa que nunca faz já que está sempre às voltas da família, descobre que está indo para Veneza e resolve conhecer a romântica cidade das gôndolas. O que seria apenas uma noite vai virando numas férias da vida de dona-de-casa e do lar. Ela faz novos amigos e com situações engraçadas e pitorescas, a Veneza dos seus moradores se descortina na tela, e a gente passa a torcer pela existência dos personagens e se encanta em como uma vida pode mudar de maneira singela.

Comecei a perceber que a Itália é um lugar que inspira mudanças. Creio eu. Nunca estive lá, mas há algo em pequenas cidades e no interior que nos motivam. Adoraria viver em NY ou Paris, sim… mas mudança mesmo de vida seria viver na paisagem amarelada da Toscana, que aliás, já foi tema de um outro filme sobre mudanças inesperadas e repentinas também, assim como Só Você.

Não fiquei com vontade de largar tudo e ir para Veneza, mas com certeza fiquei reflexiva. Não há nada que me prenda, além dos sonhos acordadas da vida que eu quero ter um dia. E me canso às vezes de tanto sonhar e o pouco que eu faço não ter resultado. Eu quero tantas coisas e não faço nada. Outras para acontecer não dependem só de mim, afinal entre as coisas que eu quero incluiu um outro. Mas esse é um pensamento errado, eu sei, pois a vida que acontece é aquilo que eu faço dela. Mas quero não apenas viver, mas também compartilhar, como se compartilha pães e tulipas. A Rosalba esquecida pelo outro nos mostra o quanto fazer por si, ainda que sem querer, pode trazer inesperadas surpresas e lá no final das contas realizar-se também com o outro. Eu ainda estou aprendendo a ter uma felicidade só minha. Dizem que o caminho é esse, mas eu queria o atalho e a fantasia.

Será que a gente precisa ter para se desprender? Ter um casamento monónotono e virar empregada dos filhos para descobrir que dá para viver uma outra vida, ainda que com muito menos segurança e estabilidade? Mas nossa geração não terá esse privilégio. Formando famílias depois dos 30, até ter filhos adolescentes e criados já seremos idosos. E aí é que vem toda a gênese do meu desespero: o que eu fiz nesses meus 30 anos? Eu deveria estar aproveitando e algo me diz que a Itália tem muito a ver com isso. É para lá que devo ir? Não sei, mas é para algum lugar diferente de onde estou.

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