Me rendi aos sertanejos também. Fui assistir hoje Dois Filhos de Francisco – A História de Zezé Di Camargo e Luciano. Eu sempre digo que gosto de todo tipo de música, com execeção de sertanejo. Mas confesso que na época que surgiram Leandro e Leonardo e Zezé com o seu É o amor, eu sabia todas de cor (na verdade ainda sei), cantava pela casa e quase rasguei as fitas K7 que eu tinha deles, de tanto escutar.

O filme, como não deve ser novidade, me emocionou, além de ser bem feito. Gosto das histórias de pais, assim como gostei do livro Quase Memória e do filme As Invasões Barbáras. Mas esse me encantou por ser Francisco um pai que acreditou nos sonhos de seus filhos, e mais do que isso, fez o sonho acontecer.

Foi insuportável encarar a luz quando saí da sala escura. Procurei logo o banheiro. Estava com o rosto inchado e vermelho. Eu chorei do início ao fim do filme. Constrangida fiquei numa pequena fila, mas ali no rosto das mulheres, dava para ver que também choraram. Pior foi sustentar esta cara com as lágrimas ainda escorrendo, no ônibus de volta para casa.

Lembrei dos anos que meu irmão nasceu e das dificuldades que passamos. Desempregada minha mãe passava os dias com ele no hospital, ele ficou lá por quatro meses e em casa começou a faltar as coisas. Por uns tempos passamos a arroz e feijão, isso não é passar fome, mas para mim que não gostava de feijão era terrível. E quando minha mãe não conseguia voltar do hospital, eu preparava massa com sardinha, a única coisa que sabia cozinhar. Minha irmã deve ter alergia a esse prato, de tanto que comeu. Por isso entendi a fome de Nelson Rodrigues quando li A Menina sem Estrela e por isso chorei muito assistindo Dois filhos… O pai da minha mãe, na época, tinha um mini mercado. Com as dificuldades, fui fazer compras lá. Mas ele mandou a conta depois e qualquer semelhança é mera coincidência.

Todas essas coisas calaram no fundo. Admiro a garra de Francisco. Cheguei a julgar que com meu pai não tivera a mesma sorte. Mas hoje tenho a minha profissão, minha
casa, graças a ele, graças a ele ter se mantido acordado. E sei que agora, mesmo com um pezinho atrás, ele acredita no meu sonho. E minha mãe foi aquela que sempre me deu força e ela ainda não parou de arrumar a casa que tem melhorado com o passar dos anos.

Mas este foi só um momento, uma fase ruim da minha vida. Para Zezé e Luciano foi uma trajetória de superação e conquistas. Mas para muitos brasileiros é a realidade, e toda a história de suas vidas. Às vezes sinto vergonha desse período difícil que tive na minha vida. Mas acho que a gente não deve se envergonhar das coisas que nos dão firmeza de caráter, e principalmente, embora esqueça às vezes, a dar valor ao que tenho.

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