Comecei a ler
Se um viajante numa noite de inverno, do Italo Calvino, dois dias antes da estação fria começar. Não tivemos inverno, e também até agora não li Se um viajante… O livro de Calvino é uma incessante interrupção de histórias, tecida por uma primeira que é o fio condutor, que é a do Leitor que ao ler tem as obras interrompidas e cada vez que vai em busca de sua continuação encontra outra história pela metade. E esta é, de certa forma também, a minha história e de todas as pessoas que estão lendo ou já leram o livro.

No início, uma série de recomendações e de maneiras em que a leitura pode ser realizada é descrita por Calvino. Tão comprometedoras a ponto de ter me sentido culpada de ler o livro no ônibus. Essa era a chance do italiano comigo, mas até agora, o livro não me surpreendeu e sinto que ele quer me ludibriar. Esse amontoado de enredos intermináveis me lembram muito as inúmeras localidades descritas em As Cidades Invisíveis, que não gostei nem um pouco (e agora há pouco peguei o exemplar e vi que a tradução é do Diogo Mainardi, coincidência…). Não conheço As Mil e uma Noites nem tão pouco as histórias de Marco Polo, mas me parece que Calvino tenta fazer relação com estas. A primeira seria Se um viajante… e a segunda, As Cidades Invisíveis.

Agora mesmo interrompi a leitura na página 224. Estava me sentindo sufocada. Tive uma crise de claustrofobia provocada pelo livro. Está certo que tinha baixado os vidros da janela, faz frio na minha casa. Mas a crise foi posterior ao ter aberto uma fresta. Até agora, nenhuma surpresa. Só esse sufocamento e uma pequena crise de identidade, pois o livro te trata o tempo todo como Leitor, estava convencida ser ele, mas quando ele tem uma relação sexual com a Leitora me senti uma lésbica. Um Quero ser John Malkovich da literatura, sendo eu, uma alma feminina dentro da cabeça deste Leitor masculino. Não creio ainda ser surpreendida, a não ser que Calvino me conte uma única história e que tenha coerência e sentido, juntando todas as que me fez ler até agora sem ter o gozo do final.

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