“Abençoados sejam os esquecidos, porque aproveitam até mesmo seus próprios erros” . (Nietzsche)

Fui ver no último fim de semana o filme Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. Quem assistiu ao filme vai entender porque na saída do cinema, todas as pessoas (que não eram muitas, pois a Sala Norberto Lubisco é minúscula) me olharam: eu estava com uma jaqueta laranja. Mas não foi com a Clem. que me identifiquei, e sim com o Joel.

Acho que levo uma vida tão sem graça quanto a dele. Também não sou uma pessoa impulsiva, embora tenha a mesma ansiedade dos personagens de viver a vida intensamente e mesmo assim, vejo as horas, os dias, as semanas e os anos passarem, sem que tenha feito nada de especial. Analisando semioticamente, meu apartamento é tão ou mais pequeno que o dele, e às vezes tão bagunçado quanto. Já muito utilizei o metrô para trabalhar e quase não saio da rotina.

Acho que é por isso alguém quis me apagar de suas lembranças, tal faz Clementine com seu namorado. O pior é saber que na vida real não existe a tal clínica e que nossos momentos não foram gravados numa fita K7 justificando tal procedimento. As pessoas simplesmente nos apagam e é tão doloroso conviver com isso, como bem mostrou Joel. A gente fica procurando uma resposta, um porquê disso. Lembra dos bons momentos que viveu e não entende como uma fração destes que talvez não tenha sido tão positiva, seja o fator decisivo para que tal procedimento seja realizado por aquele que amamos. E como no filme, os arquivos são confidenciais e não conseguimos vasculhar o cérebro do outro para descobrir o porquê. E só nos resta fazer o mesmo, porém a gente não consegue deletar por completo, pois não decidimos isso, temos que fazer para parar de sofrer, mas não estamos lidando com uma escolha própria, e sim algo imposto pela vida, pelas circustâncias, pelos sentimentos ou pela frieza de outro. E nosso procedimento falha, assim como de nosso personagem e levamos para sempre guardados um pedaço daquela paixão, por um tempo no coração e na mente, depois apenas na mente, que é o que vale, pois o coração é metáfora.

Mas o filme é bonito, porque o amor é maior do que as lembranças e os acaba unindo, isso até nos dá uma certa esperança. Mas filme é filme… a vida real é diferente, cruel, mas diferente.

E para terminar, os versos de Alexander Pope que deram o título ao filme:

Feliz é o destino da inocente vestal

Esquecida pelo mundo que ela esqueceu

Brilho eterno da mente sem lembranças

Cada prece aceita, cada desejo renunciado.

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