Final de janeiro recebemos nosso última cesta de legumes da Amap. O local onde buscávamos encerrou a distribuição pois após três anos o número de participantes diminuiu ao invés de aumentar, como era esperado. O sistema de Amap é uma ótima opção de compra de legumes bio, direto do produtor. Você pode pagar por cesta, mas normalmente é pago anualmente para adiantar o dinheiro da produção e a cada semana você busca a sua cesta de legumes em um ponto de distribuição perto de sua casa (eu buscava numa creche), evitando assim a emissão de carbono e poluição com possível deslocamento em carro.
Por cerca de 20 euros você tem direito aos legumes (às vezes frutas também) da estação, outro ponto importante na preservação ambiental. Na distribuição é marcado a quantidade que você pode pegar de cada legume, como por exemplo: 1 quilo de batata, 2 alfaces, 3 abobrinhas… e por aí vai. Uma cesta por semana é suficiente para uma família de quatro pessoas. É possível fazer meia-cesta, basta combinar com uma outra pessoa que será seu companheiro de “panier”.
O desafio é conhecer receitas para os legumes de cada estação. Como o último verão aqui foi o meu segundo verão francês já tirava de letra fazer ratatouille, beringela recheada, lasanha de beringela, molho de abobrinha, abobrinha recheada com carne moída e saladas, muitas saladas, com arroz, cereais ou somente combinação de legumes, normalmente com três variedades de tomates. E também fazer molho de tomate para guardar para o inverno, pois assim se respeita o ciclo de cada estação. Somos acostumados a comer de tudo o ano todo pois por questões de mercado muitas vezes os legumes são cultivados de forma não natural ou são importados (o que acarreta transportes poluentes). No Brasil acho que isso ocorre com menos frequencia, já que é um país tropical em que “se plantando, tudo dá”.

Enfim, mudança de estação e a cesta da Amap era uma verdadeira surpresa a cada semana. Legumes que existem no Brasil e eu nem sabia como traduzir o nome pois não o conhecia, como a acelga. Muitos legumes a base de raízes como nabo, beterraba, aipo e rabanetes de várias espécies que se confundem com outros legumes e só experimentado para saber o que é. Muitos desses legumes eu jamais tinha comido, vai dizer, nabo é uma coisa que a gente faz cara de nojo antes mesmo de experimentar. Mas a surpresa não era só minha não, conversei com franceses que me disseram desconhecer diversos legumes e a solução: fazer uma sopa! Mas o que fazer com as duas peças de erva-doce que recebíamos toda semana? Sim, aqui é um legume!
E a propósito do último post, posso dizer que enfim estou habituada aos legumes de inverno. O cardápio essa semana por exemplo, não foi nada assim de muito elaborado, mas para quem não cozinhava… teve sopa de abóbora com cenoura, batata e creme fresco; quiche de espinafre com bacon; salada de repolho, cenoura e beterraba com nozes, cubos de queijo e croûtons de alho; acelga enrolada no presunto com molho bechamel e queijo; crepe com molho branco e espinafre. O crepe ou panqueca, foi a solução para terminar o leite que abri para fazer o bechamel. Aqui tem garrafinha de meio litro, mas mesmo assim fica estragando na geladeira. Já o molho branco para os espinafres foi para terminar o creme de leite aberto para fazer a quiche e utilizei um pouco do creme fresco da Normandia que vai na sopa. E tudo sempre acompanhado de salada verde: alface e “mache” e queijo. Consegui bem equilibrar todos os ingredientes da cesta e os outros restantes na geladeira e fazer um cardápio elaborado – esse é o maior desafio, pois sem conhecer a gastronomia francesa e com os mesmos ingredientes, às vezes é difícil variar. Ser criativo também é difícil pois nem sempre sei que legume vai bem com o quê. Como a acelga com presunto, um improvisado, pois conhecia a receita com endívias.


E agora que não tem mais Amap, sábado é dia de feira. Mesmo com as temperaturas negativas lá fora, amanhã de manhã vou no “marché” onde os mesmos produtores comercializam seus produtos. A ideia é colocar no lugar das cestas um sistema de crédito. Podemos continuar pagando adiantado e cada semana eles descontam o que compramos na feira. No fim acho que será melhor pois podemos escolher os legumes e a quantidade e não vamos acumular batata, cebola e ovos, que tinha toda semana em porções consideráveis e às vezes era difícil comer tudo, mesmo que eles durem um pouco mais.
Enfim, a dica que fica é que comer saudável e comer bem é fácil. Exige um pouco de esforço no começo, é verdade, ainda mais para quem não sabia cozinhar… E no Brasil é ainda mais fácil, pois a variedade de produtos frescos é muito maior e infinitamente mais barato. Com legumes saborosos reduzi o consumo de carne, melhor para a saúde e melhor para o meio ambiente, é nossos boizinhos do churrasco nosso de cada domingo e do bife de todo dia são grandes responsáveis por emissão de Co2. Adoro uma carne, mas não sinto mais tanta falta e quando como durante todo um fim de semana por exemplo, me sinto mal depois, pesada… O importante é sempre o equilíbrio. Como dizia uma professora de química que tive “tudo é veneno, nada é veneno, depende da quantidade”.

7 comentários
Feed de comentários deste artigo
3 fevereiro , 2012 às 9:47 pm
Mari
A Fernanda que conheço não gosta dos afazeres domésticos, sonhava em ser uma grande profissional e desejava que a casa funcionasse quase que sozinha…
Noto uma mulher mais madura e até atrevo a dizer mais dedicada ao próximo em vários aspectos, mesmo quando morava em outra cidade não havia “cortado o cordão umbilical” por completo, agora sem escolha é hora de crescer e pelo visto estás fazendo isso muito bem.
Não vejo a hora de provar tudo esse teu novo conhecimento.
4 fevereiro , 2012 às 2:23 pm
fernandasouza
Ainda não gosto de afazeres domésticos (e quem gosta? hehe) Mas aqui quase ninguém tem faxineira pois tudo que é serviço sai caro. E como naquele artigo que circulou no Face há um tempo atrás, dos pais da jornalista que foram viver na Espanha sem as mordomias da classe média alta do Brasil. Mas até a classe média normal as tem, como faxineira… mas ninguém aqui tmb repara se a casa tá limpa ou suja ou bagunçada… E alguém para cozinhar seria um luxo e tanto :p
Enfim, a gente cresce né? E boa parte do cordão era a mãe que ajudava a manter…
E quanto a profissional, estudei, trabalhei na minha área 6 anos, vi que não era subir ao topo que eu queria. Fiquei feliz com as conquistas que tive, que para mim foram importantes, até me dar conta que não era mais feliz, que eu não fazia outra coisa a não ser trabalhar, que o trabalho nunca foi valorizado e que toda minha vida e um monte de experiências que deveria ter na vida pessoal estavam paradas. Escolhi ser feliz na vida pessoal que ter realização profissional e me acho muito madura por ter me dado conta disso antes dos 30, aí chegou a hora de amadurecer essas coisas que ficaram para trás numa vida sem tempo. E quando vejo que ex-colegas com 38 anos trabalhando no mesmo lugar que trabalhei resolvem limpar as gavetas porque lhe sugerirem uma aposentadoria para cair fora, após toda a vida de dedicação para ser substituído por jovens sem experiência, que no jornalismo conta muito, vejo que fiz a escolha certa. Daqui 38 anos quantas coisas mais eu teria perdido? Mesmo que as mais simples, como uma reeducação alimentar.
22 fevereiro , 2012 às 6:50 pm
giseleneuls
essas fotos são de dar água na boca, mas quem é você?? o que fez com a minha amiga??
22 fevereiro , 2012 às 7:05 pm
fernandasouza
As fotos não são minhas, peguei na internet. Mas te garanto, quando faço fica igual
23 fevereiro , 2012 às 5:24 pm
giseleneuls
Fer, eu morro de vontade de usar o funcho como o Jamie Oliver ensina nas receitas dele, mas cadê que a gente acha isso aqui?
23 fevereiro , 2012 às 5:25 pm
fernandasouza
Mas é funcho ou erva-doce? A tradução é erva-doce… mas assim nunca tinha visto antes!
28 fevereiro , 2012 às 5:31 pm
giseleneuls
é a mesma coisa, Fer,a erva doce que a gente usa aqui no bolo de milho é a sementinha do funcho.