Depois de dois meninos (Valentin e Kolya) terem encantado meu coração em filmes que mostram a  realidade de seus países, hoje foi a vez de uma querida vovózinha me emocinar em Depuis Qu’Otar est Parti. O filme se passa em Tbilisi, na Geóriga e conta a história não de Otar, mas da espera e da saudade de uma mãe e de uma filha e uma neta que vêem Paris atráves do olhar do irmão que partiu. E a história é bem mais do que isso, mas contar aqui faria perder a graça. Assistam que vale a pena.

Além da  relação entre avó e neta que é tão bonita, é possível conhecer um pouco a Geórgia e entender o que se passa por lá. Estou numa fase de praticar ainda mais o desapego e às vezes é melhor nem pensar para poder seguir em frente. E então a gente vê, engenheiros, professores, vendendo suas coisas num mercado de pulgas para poderem sobreviver, no sentido de comprar comida mesmo. A mãe e a filha que dormem juntas num sofá cama, a falta de assistência em saúde…

Uma das minhas cenas preferidas no filme é quando mãe e filha vão passar um  fim de semana num pequeno e abandonado sítio da família e deixam a avó em casa. Aproveitando que está sozinha, ela vai até o parque de  diversões e anda na roda-gigante. Lá em cima, longe dos olhares protetores da família, ela fuma dois cigarrinhos e respira liberdade.

Para mim que moro, morei sozinha muito tempo, esta cena tem um real significado. Ainda estou aprendendo como sentir certas liberdades, às vezes até mesmo de não fazer nada, quando se divide o teto com outra pessoa. Fico imaginando o que este momento representa na vida de uma velhinha como esta, que da casa dos pais foi morar com o marido, ou considerando o comunismo, nem deve ter saído da casa da família. No máximo deixou um sofá-cama para ganhar a privacidade de uma cama dividida com o cônjuge. E depois ficou aos cuidados da filha e da neta tendo que lutar por suas vontades, muitas vezes, na base da ranzinza.

E o mais engraçado, é que nos extras do DVD se descobre que a atriz não queria fazer esta cena. Por trás da personagem de uma mulher forte, decidida e convincente, tinha uma senhora de 88 anos com medo de roda-gigante e que sequer tinha entrado numa! Foram dias convencendo a atriz Esther Gorintin até que ela encara o desafio pessoal, encarna a personagem e voilà, mais que uma ótima cena, mas uma metáfora para a vida, pelo menos para a minha. E ela gostou da experiência e repetiu quantas vezes foi necessário, o que se negava quando enfim foi convencida a entrar na pequena cesta que a levaria pelos ares.

Ou seja, nunca é tarde para sentir frio na barriga e se viciar com esta sensação. E eu continuo não tendo medo de me levar nessa roda do mundo.

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