Obras Introdução à nova crítica e Malhas da liberdade, de Cildo Meireles. expostas no MARGS Fotografia: Cristiano Sant'Anna

Obras Introdução à nova crítica e Malhas da liberdade, de Cildo Meireles. expostas no MARGS Fotografia: Cristiano Sant'Anna

Visitei parte da 7ª Bienal do Mercosul, fui na mostra Projetáveis, no Santander Cultural e Desenho das ideias, no Margs. Na primeira, senti que é aquela parte que quer se integrar ao mundo virtual à qual vivemos, dialogando com a fronteira entre o real e o virtual. A obra Virtual Redundancy é a prova disso, uma maquete com peças de computador é montada em um vídeo e os objetos estão disponíveis no real para que possamos criar também.

E como tudo nesse mundo parece já ter sido feito, nada me pareceu novidade. Como em Drawing for Filó, em que o artista desenha sendo filmado e o que temos na tela é a projeção da obra sendo feita. Uma outra plataforma, acompanhamos o processo de criação, mas ainda é um desenho, a arte genuína.

Gostei da obra The Dance Music Collaborations, é literalmente estonteante, pois as luzes e o som te deixam tontos dentro da sala de projeção. Curiosa é a instalação Atrás da Porta, uma topologia dos espaços inacessíveis. O artista, Fernando Pião, colocou câmeras de segurança em lugares para os quais não se costuma olhar. As câmeras estão espalhadas pelo Santander em pontos onde ninguém passa. O segurança, um senhor muito simpático (afinal ele achou que eu tinha 17 e 18 anos… tá certo que estava meio escuro lá) me disse que a mediadora estava explicando esses dias a obra para um grupo de estudantes e ouviu-se um estouro dentro do museu. Uma cortina caiu onde uma dessas câmeras estava. Ela dizia que o artista queria mostrar pontos onde não se observam pessoas e lá estavam nos monitores, os bombeiros arrumando a cortina… Fun at Work parece ser bem legal, mas estava fora do ar, assim como em outras, a interatividade do público não estava funcionando muito bem e as obras “travando”… é o mundo dos computadores!

Ainda não fui no Cais, não sei o que tem lá, mas colocar os projetáveis dentro do Santander foi uma ótima ideia. Se vê tudo no conforto do ar-condicionado. Só algumas fichas da obra deveria ter uma luz em cima para podermos ler. Lembra daquela Bienal dos containers? A gente quase desmaiava de calor vendo os vídeos. Tinha também no Memorial do RS, um calor dos infernos por causa do teto de madeira. E na 5ª Bienal, lembro que os últimos andares da Usina do Gasômetro se transformaram em salas escuras que dava até medo de visitar.

Abraham Cruz Villegas, Tratado de Libre Comer

Abraham Cruz Villegas, Tratado de Libre Comer

No Margs é que me senti mais em casa, com a mostra Desenho das Ideias. Fiz a visita com uma monitora. Para mim arte é completamente ideia, muito mais do que um objeto, porque às vezes os artistas não criam nenhum objeto, mas se apropriam de coisas já existentes dando um novo significado. E a exposição mostra o desenho, de onde tudo parte, seja como esboço para uma pintura ou para a ideia de uma instalação ou uma performance. Alguns estão lá não em forma de desenho, mas materializados em 3D. Cildo Meireles é um dos meus preferidos. Ele ainda nega que não tenha cunho político com a ditadura, mas a obra Malhas da Liberdade é ou não é uma crítica a quem ia preso em nome de ideias libertárias? Gostei da delicadeza dos pequenos desenhos de José Antonio Suárez e daquela alemã (Nina Lola Bachhuber) de traço delicado que desenha com pincel! Não deixe de ver o que tem por trás da obra Tratado de Libre Comer, de Abraham Cruz Villegas. Imperdível a crítica à hipocrisia de James Ensor com suas máscaras. Tem Oswaldo Goeldi, León Ferrari  e vejam que interessante o que o Paulo Bruscky publica nos classificados. Parece que andou saindo na ZH esses dias também.

E a surpreendente Marta Minujín, que criou El Partenón de Libros (1983), “uma réplica do Partenon de Atenas em tamanho natural em plena Avenida 9 de Julio de Buenos Aires, recoberta com livros proibidos durante a ditadura militar, que foi inaugurado e entregue ao público durante o primeiro Natal em democracia”. Genial! Pena que só tenha os esboços e o vídeo da obra… Também já fez outros monumentos, como um obelisco de pão doce.

Tem muito poema sonoro e outras obras em áudio no Margs, mas não me chamaram muito atenção. Também não tem graça ficar olhando para uma parede branca enquanto escuta, muito melhor como fizeram nessa bienal, quando mp3 player nem era muito popular ainda, mas você pegava um e ficava escutando enquanto dava uma voltinha pelo cais. E também era ruim a monitora ficar ali me esperando… mas tem até Arnaldo Antunes.

Também anda rolando performances durante a Bienal, não cheguei a assistir nenhuma, mas pelo que li sobre a Aula de Ginástica e Filosofia e Ao Vivo, não pareceu nada muito atraente. Nada como a perfomance daquele cara nu, não lembro em qual Bienal, foi antes da 5ª e eu morava no centro (isso foi de 2003 a 2005). Alguém lembra? Não tenho o nome do artista, tinha um recorte no meu mural que ou foi fora ou está muito bem guardado. Mas era assim, a gente entrava em uma sala no segundo andar da Usina e embaixo, no primeiro andar, tinha uma piscina, onde o artista entrava nu e imagens coloridas se projetavam no seu corpo. Ele fazia movimentos que combinavam com as projeções. Era uma coisa muito linda de se ver e tu até esquecia de que ele estava completamente pelado. Mas se serve de consolo, tem fotos da performance do Flávio de Carvalho no Margs, quando ele desfilou de saia e meia arrastão, convencido de esse ser o traje ideal para os homens que vivem num país com o clima como o do Brasil (escrevi sobre ele aqui). Ah, as vanguardas…

Pelo menos voltei a me encantar com a Bienal, na 6ª eu passei bem à margem… e o tema era justamente A terceira margem do rio. Nesse ano, Grito e Escuta. Faz todo sentido para mim.

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